Uma questão de princípios ou de desempenho?

Após a crise é normal nos questionarmos onde erramos, por que as coisas não ocorreram como imaginávamos. A última crise suscitou diversas questões sobre o compromisso entre ganhos de curto e longo prazo, comportamento moral e ético nos negócios e regulamentação governamental, colocando a eficiência da livre economia de mercado em xeque. Um dos resultados desta discussão é o crescente fluxo de artigos em revistas importantes de administração, como a Harvard Business Review, sobre a necessidade do comportamento moral e ético na administração. Pioneiros, sem quaisquer conotações de elogio, os americanos tomaram a dianteira e a própria Harvard criou um juramento para os formandos em administração. A EBS – European Business School segue seus passos e ambas buscam criar valores em seus alunos que deslocam o foco novamente para o coletivo em detrimento do individual. Seria este ato, aclamado por alguns como louvável, suficiente para modificar as decisões empresariais e melhorar, no longo prazo, o desempenho e o papel das organizações privadas na sociedade? Creio que não. E explico o por quê.

Muitos de nós já passou pela experiência de tentar emagrecer fazendo dietas milagrosas como dieta da sopa, dieta do pastel de ar ou dieta de não sei o quê. Invariavelmente atingimos o resultado esperado da dieta no curto prazo, geralmente caber naquele terno antigo. No longo prazo, todavia, voltamos a engordar, e pior, comendo menos do que anteriormente. Manter um corpo saudável e um peso equilibrado exige a mudança do comportamento total, que inclui não somente a mudança do quanto comer, mas também da freqüência com que se come, daquilo que se come, da prática de exercícios e assim por diante. Ou seja, não é possível modificar de maneira sustentável o resultado do sistema no longo prazo (peso) com um choque localizado (dieta milagrosa). Necessita-se de uma mudança global e sustentada da estrutura do sistema (estilo da vida como um todo).

Uma organização, quando entendida como organismo, não é diferente. É ilusão pensar que um recém formado (mesmo que com diploma de Harvard), apenas por ter jurado comportamento moral e ético, modificará o comportamento padrão organizacional: priorização do resultado financeiro no curto prazo. Outra ilusão é pensar que poderíamos ter evitado a última crise financeira através do estudo mais detalhado do complexo sistema financeiro existente. Post-mortem é fácil fazer essa análise. A priori, todavia, não possuímos o conhecimento do comportamento do sistema, que é muito complexo. Da mesma forma novas regulamentações governamentais também não serão eficazes na busca por uma economia que priorize o bem comum de longo prazo em detrimento do bem individual de curto prazo. A orientação imediatista ao lucro tem seus fundamentos na estruturas psicológica, social, econômica e educacional e modificá-la passa por uma abordagem sistêmica e coordenada, entendendo-se as relações existentes entre essas diferentes estruturas.

Começamos pela estrutura social e econômica. Observou-se ao longo da história que a superioridade do capitalismo no desenvolvimento tecnológico e na geração do bem estar para a população. É importante ressaltar que, neste caso, não se pode considerar uma história de 50, 100 ou 2000 anos longo-prazo. Muito mais um curtíssimo piscar de olhos na evolução do planeta. Todavia, a observação do sucesso do capitalismo nesse curto prazo gerou uma cultura que ressalta seus princípios estruturais, isto é, a busca do desempenho e do resultado individual às custas do bem comum. Intrínseco nesta teoria está a falácia de que o desempenho comum nada mais é do que a soma dos bons desempenhos individuais. Em um sistema complexo e não linear isso nem sempre é verdade. O desempenho sustentável no longo prazo deriva de maiores custos no curto prazo, afinal, quanto custa mudar seu estilo de vida para ter um corpo saudável? A cultura imediatista, por sua vez, incentivou a criação de estruturas sociais e econômicas formais que recompensam decisões de sucesso também no curto prazo. E sucesso entende-se, neste contexto, a geração de dinheiro (não necessariamente valor). Assim surgiu a corporação atual, aquela que conhecemos bem, que explora mão de obra quase escrava. De outro lado, a sociedade se molda para fomentar esta máquina de fazer dinheiro.

O motor desta máquina, o pensamento capitalista, está todavia enraizado na nossa estrutura psicológica. Maslow descreveu há muito tempo, e isso pode ser muito bem observado quando recursos naturais se tornam escassos, que o órgão que manda no ser humano é o estômago. Precisamos, como seres vivos antes de mais nada irracionais e instintivos, suprir nossas necessidades básicas de alimentação, segurança, moradia e assim por diante. Ora, um sistema que permite a responsabilização do indivíduo pela satisfação de suas necessidades seria assim um casamento perfeito com nosso sistema psicológico. Sim, todavia, no caso do capitalismo negligenciou-se o que Maslow já descrevia, que é a subida na sua pirâmide: quando as necessidades básicas estão satisfeitas, o ser humano continua insatisfeito, e busca preencher as necessidades do próximo nível, até chegar a auto-realização, por definição subjetiva e virtualmente inatingível. Assim gerou-se a concentração do capital na mão de poucos que se “auto-realizam” custando para outros tantos a satisfação das suas necessidades básicas. Essa lógica impulsionou um sistema educacional coerente, que busca a especialização, pois cada um “deve buscar um diferencial” para se estabelecer no “mercado cruel”.

Quando saímos da escola temos uma visão completamente fragmentada da realidade, como se pudéssemos entender o mundo com diferentes óculos: os das artes, como a poesia ou a música, os da biologia, onde a seleção é natural, os da física, com a mecanização e o reducionismo extremo, os da matemática, que são muito chatos, e assim por diante. Todavia, nosso sistema educacional esqueceu-se de que estes modelos, seja um poema, uma equação ou uma lei da biologia, não são nada mais do que diferentes interpretações lógicas coerentes de um mesmo sistema, o “mundo real”. E é justamente a falta dessa interconexão que gera a incapacidade do consumidor de avaliar corretamente o valor daquilo que ele compra e, no final das contas, mantém o comportamento imoral e não ético nas organizações. É claro, para esse consumidor (exageradamente falando), meio ambiente e economia são dois campos diferentes e na hora da compra apenas o benefício de curto prazo é avaliado, o preço, e não o benefício total, de longo prazo, como a pegada ecológica de um produto. E isso se deve não somente aos fatores psicológicos, mas ao adestramento que nos sujeitamos em cerca de doze anos de educação fundamental.

Com o exposto, é possível concluir que a geração de um comportamento organizacional mais moral e ético, que volte seu foco novamente para o longo prazo e para o bem comum, buscando a sustentabilidade, não acontecerá com tentativas isoladas e desconexas, como o juramento acima citado. Esse novo comportamento só será atingido através de uma mudança coordenada em diversos aspectos do sistema, passando por:

1. modificações no sistema educacional: uma educação sistêmica deve ser capaz de mostrar à criança as relações de curto e longo prazo entre as disciplinas, permitindo o consumidor do futuro avaliar melhor a utilidade, ou o benefício, de cada produto comprado. Além disso, a educação moral e ética deve vir acompanhada das relações destes princípios com o bem estar da comunidade. De nada vale o sermão ético e moral existente em algumas escolas hoje, quando não relacionado ao desempenho do sistema no futuro.

2. modificações no sistema sócio-econômico: através da instituição de regulamentações que incentivem a busca do bem coletivo e de longo prazo em detrimento do individual imediato. Além disso, programas assistencialistas são, em uma fase inicial, indispensáveis, pois é impossível acreditar que uma mãe que não tenha condições de suprir a fome de seus filhos pensará na pegada ecológica do produto que compra;

3. modificação de estratégias organizacionais: o consumidor moral- e eticamente consciente é responsável por gerar o sucesso de decisões sustentáveis, reforçando esse tipo de decisão organizacional.

Vale ressaltar que a mudança organizacional, nesta forma, é o resultado de uma modificação mais completa, em outras partes do sistema. O sucesso de estratégias sustentáveis provém de um consumidor e de um sistema sócio-econômico diferente e gera, no longo prazo, uma cultura organizacional diferente. Uma cultura que tem como princípios e valores a moral, a ética, a sustentabilidade de longo prazo, pois somente estratégias baseadas nesses valores são capazes de garantir o futuro organizacional.

Enquanto isso, enquanto tentamos consertar a turbina do avião voando, continuaremos a comprar frango mais barato na Alemanha do que no Brasil. E pior, continuaremos incentivando esse sistema, sem perceber que a grande parcela de ração para alimentar o frango alemão de baixo custo é  produzida com soja brasileira, uma das principais vilãs no desmatamento da Floresta Amazônica. Continuaremos a comprar produtos de empresas supostamente ecologicamente corretas, mas que visivelmente utilizam matéria prima chinesa, construída com a exploração quase escrava da mão-de-obra. Ou ainda, o juramento de Harvard continuará sendo assinado só por metade dos alunos (como citado na managerSeminare de janeiro). Imagine você, quantos desta metade que assinou, efetivamente o praticará!

Deixe um comentário