Explicando Decisões: a teoria dos jogos e suas armadilhas

No seu famoso (e muito bem feito) documentário The Trap (no Youtube e em inglês: partes 1 e 2, parte 3), Adam Curtis demonstra de uma maneira muito convincente a influência da teoria dos jogos na sociedade atual. Criada inicialmente para a análise do poker, a teoria dos jogos foi bastante desenvolvida na guerra fria para a análise de estratégias de guerra.

Resumidamente a teoria dos jogos aplica-se a toda situação na qual o resultado de uma determinada decisão não depende apenas daquele que toma a decisão, mas também da decisão tomada por outros envolvidos. Neste contexto, a teoria dos jogos fornece um conjunto de técnicas que nos permite analisar diversas situações e tomar a melhor decisão, de um ponto de vista racional.

Os modelos pressupõem algumas hipóteses que, na vida real, nem sempre são diretamente alcançáveis. Duas hipóteses são importantes: todos os jogadores comportam-se racionalmente. Esta hipótese parece, a princípio, bastante restritiva, uma vez que todos nós já nos deparamos com decisões aparentemente irracionais. Todavia, creio que uma grande parcela destas decisões passam a ser racionais quando a segunda hipótese é considerada: todo jogador conhece o valor dos resultados de cada decisão para todos diferentes jogadores. O ponto importante é que, na maioria das vezes, as decisões tomadas por outros apenas nos parecem irracionais, pois não conhecemos realmente qual é o valor atribuído por eles aos diferentes resultados. Caso conhecêssemos este valor, passaríamos a entender o processo racional de tomada de decisão.

Os resultados da teoria dos jogos podem parecer bastante assustadores. Consegue-se explicar facilmente o por quê em um trabalho conjunto – por exemplo em uma sociedade – existe uma tendência clara (e racional) em se trabalhar o menos possível (quem nunca ‘carregou’ outros no trabalho ou na universidade?). Diversas destas conclusões são muito bem retratadas no trabalho de Curtis.

Mas, somos todos tão previsíveis, tal que possamos ser modelados pelas ferramentas matemáticas básicas da teoria dos jogos? Altruísmo existe? Ora, se voltarmos nossa atenção novamente para as hipóteses básicas, percebemos que o comportamento altruísta pode parcialmente ser modelado pela teoria dos jogos, simplesmente atribuindo-se mais valor às decisões cuja parcela de altruísmo é maior.

A importância desta abordagem para a administração é extrapola seu poder explicativo. O contato com clientes, fornecedores e concorrentes pode ser bastante produtivo na estimação do valor que cada um dá a cada resultado de uma determinada decisão, como por exemplo: devo baixar o preço? Ou então, devemos colaborar em nossa cadeia de suprimentos? Entender estes mecanismos básicos de como avaliamos decisões pode nos fornecer dicas valiosíssimas na estruturação de novos indicadores de desempenho e de sistemas de recompensa. Todavia, a aplicação mesmo que correta teoria dos jogos pode gerar resultados indesejáveis, caso o ciclo não seja fechado. Ou seja, o efeito de todas as estratégias (também de trapassas) possíveis por parte dos jogadores deve ser cuidadosamente analisado.

Justamente neste ponto que a teoria dos jogos fundamenta e completa a análise sistêmica. O pensamento sistêmico nos ajuda a entender a relação entre estrutura do sistema e comportamento do mesmo. Já a teoria dos jogos nos permite entender melhor o papel de cada ator neste sistema. Papel este que, por sua vez, cria e justifica a estrutura do sistema como um todo.

Assim, creio que a caixa de ferramentas do gestor atual deve incluir também conceitos básicos da teoria dos jogos. O ‘pulo do gato’ porém, o ‘diferencial’, está naquele gestor que efetivamente consegue, a partir destes conceitos abstratos, entender melhor a complexidade do mundo que o rodeia.

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