Arrogância ou burrice? Por que gestores ainda evitam a simulação?

Turbulência, dinâmica e rapidez são características freqüentemente citadas sobre o comportamento do mercado atual. A completa interligação existente permite que o tempo entre a emissão de uma notícia (ou boato) e o resto do mundo seja infinitesimal. Para uma organização esta conectividade é desafiadora. Novos produtos e novas tecnologias criadas ao redor do mundo passam a se tornar necessidades pelo poder da informação detento pelos consumidores.

A correta previsão das conseqüências de algumas decisões tornou-se tarefa impossível. A empresa é afetada por tantos fatores que, muitas vezes, nos perguntamos qual é o real papel do gestor no alcance do sucesso. A tomada de decisão envolve, nesse sentido, a avaliação de inúmeros fatores e, mais importante, a interação destes no tempo. Embora necessária, essa abordagem é extremamente limitada quando consideramos a capacidade do ser humano de entender eventos e relações complexas.

Neste contexto, a simulação surge como ferramenta determinante na tomada de decisão. Ainda pouco usada, sobretudo no Brasil, até por conta de uma certa discriminação, a simulação já é ferramenta essencial em diversas empresas no exterior. Apesar de um exercício fundamental para a formação de pilotos de avião, a maioria dos gestores não reconhece o real valor da simulação no próprio treinamento, aprendizado e no auxílio à tomada de decisão. Este preconceito surge, dentre outros fatores, da falta de conhecimento das técnicas de simulação existentes, da  falta de conhecimento teórico do problema em questão ou então do julgamento dos modelos de simulação como limitados, pois são simplificações da realidade. Abordemos estes fatores em maiores detalhes.

Falta do conhecimento das técnicas de simulação: a simulação pode ser entendida como uma técnica de aprendizado, através da qual um sistema qualquer pode ser estudado, gerando-se conhecimento. Muitos gestores acham que simuladores são ferramentas de solução de problemas, sendo que alguns temem a simulação como possível substituto si mesmos em seus cargos. Nada poderia estar mais longe da realidade. Simulação nada mais é do que uma caixa de ferramentas estruturadas que permite ao gestor analisar detalhadamente um determinado problema. Algumas importantes técnicas de simulação descrevo em artigo de fevereiro no portal Supply Chain.

Falta do conhecimento teórico do problema em questão: diversos gestores argumentam que não possuem tempo para analisar um problema a fundo e, com isso, se excluem (limitando sua capacidade) da análise detalhada da teoria que fundamenta cada tipo de problema. Utilizando um dos princípios do pensamento sistêmico, no qual, parafraseando um ex-diretor, “a bagunça é gerada por nós mesmos”, é provável que a falta de tempo tenha sido originada de decisões mal pensadas no passado. Ou seja, quanto mais rapidamente e menos racionalmente decisões são tomadas, mais decisões são necessárias e menos tempo para elas existe, um ciclo vicioso. Este fato ocorre freqüentemente em todo o mundo. Todavia, um agravante no Brasil é o fato de que muitos gestores obtiveram seus diplomas como porta de entrada para a organização e nada mais além disso. Acham que a teoria na prática é outra e que quem gosta de teoria deve estar na universidade. Mais uma vez, um grande engano. Já disse alguém muito importante: nada mais prático do que uma boa teoria. O conhecimento teórico é o único a partir do qual soluções podem ser derivadas com segurança, pois foi estruturado sobre um fundamento sólido.

A estes dois pontos soma-se o fato de que no mundo ocidental a demonstração de não conhecimento ainda significa, infelizmente, fraqueza para um gestor. Este fato apreende o gestor na sua ignorância, ao demonstrar que tais conhecimentos não são necessários para sua tomada de decisão. Contudo, ao se enquadrar a simulação como uma ferramenta de aprendizado, nada mais necessário do que o reconhecimento dos limites da sua capacidade própria.

Por fim e mais grave: descartar modelos de simulação como limitados. Obviamente modelos são representações simplificadas da realidade, mas o que é realidade? É uma tremenda petulância alegar que os modelos matemáticos de simulação são mais simples e menos úteis do que os nossos modelos mentais. É claro que a matemática impõe formalismo e, para tanto, conhecimento é necessário. Todavia, assumir modelos simples, porém formais, nos permite discutir sobre uma mesma base, com uma mesma linguagem e um entendimento comum. Somente assim o conhecimento pode ser efetivamente gerado e trocado em um grupo. Ao assumir que modelos (formais) são limitados e, portanto, descartá-los, nós não fazemos nada mais do que assegurar que não entendemos nossos modelos mentais. E pior: não reconhecemos suas incompletudes e falácias.

A simulação veio para ficar. Sua utilização com sucesso depende, todavia, da sua aceitação e do correto entendimento não somente das técnicas existentes, mas principalmente do conhecimento do problema ao qual será aplicada. Exemplos de sucesso temos diversos, desde times de futebol até previsão do mercado de aviação. Só nos resta sairmos do palco no qual nos colocamos e aceitarmos nossas limitações no que diz respeito a tomada de decisão.

E você? Conhece simulação? Sabe como um modelo pode lhe ser útil no estudo e na solução de um problema? Talvez seja uma boa hora para começar…

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