Pra que administradores?

Em uma discussão acalorada promovida pelo jornal Die Zeit (um dos principais jornais alemães) no centro de ciências sociais da Universidade de Stuttgart discutiram o ministro da educação de Baden Württenberg, o diretor Wolfgang Malchow da Bosch, a prof. da Universidade de Stuttgart Sandra Richter e o Dr. Werner Widuckel, membro do conselho executivo da Audi AG a pergunta: “por que precisamos de engenheiros?”. A atual situação política da Universidade de Stuttgart desviou o foco da discussão para a questão: “pra que as empresas precisam das ciências sociais?”. Eu, deliberadamente, interpretei a questão da seguinte forma: “pra que precisamos de administradores?”.

Vamos aos fatos. A política extremamente difundida nos países de primeiro mundo para a sustentação da vantagem competitiva é apenas uma: inovação. O conhecimento exponencialmente crescente exige diariamente mais especialistas, cada vez mais especializados. Neste contexto, foi unanimidade no fórum a necessidade de engenheiros, pois quem, a não ser eles, poderá impulsionar o desenvolvimento tecnológico mantendo-se a vantagem competitiva destes países?

Por outro lado, a tecnologia crescente e difundida substituiu diversas atividades anteriormente atribuídas a gestores de médio escalão. Equipes, cada vez mais bem formadas, precisam cada vez menos de comando e controle explícitos. Neste sentido a necessidade da figura clássica do gestor começa a se desmantelar. Além disso, a experiência alemã, cuja economia está fortemente baseada em pequenas e médias empresas na indústria de eng. mecânica e automobilística, aponta em uma direção não muito confortável para nós administradores: a grande parte dos gestores, diretores, donos e responsáveis por estas empresas nunca cursou diretamente administração.

Nesta discussão creio que um dos pontos mais fracos do administrador hoje é a falta de conhecimento técnico. Aquele dito: “sabe um pouco de tudo, mas não sabe tudo de nada”, ou então a pergunta que sempre faço aos meus alunos: “o que é mais fácil, ensinar cálculo diferencial para um administrador ou marketing para um engenheiro?”, representam bem a situação. Estes aspectos estão em clara contradição com a especialização crescente na própria prática da administração. Especialistas em RH, finanças, marketing e assim por diante são muito buscados, todavia, o clínico geral formado nas nossas faculdades está gradualmente suprindo postos secundários. E põe secundários nisso, pois muitas vezes não passam de atribuições de estagiário.

Diante desta situação, vejo que ao cursar administração, três pontos são imprescindíveis se você quiser efetivamente concorrer no mercado de trabalho:

  • entender os relacionamentos causais entre diferentes sistemas: aquela história do pensamento sistêmico que venho, há tempos, descrevendo nos posts do bolg;
  • especialização em alguma área: pensar o quanto antes em uma ótima (e específica) pós-graduação;
  • experiência internacional: como ressaltado por Malchow, aquele que não está incluído no mundo, está, automaticamente excluído do mercado de trabalho.

Agora, quando considero o salário dos presidentes e afins de grandes empresas, como por exemplo o salário do atual CEO do grupo Arcandor, dono da Quelle e Karstadt, de EUR 2.000.000 anuais fixos, mais EUR 1.000.000 de remuneração variável, julgo que o incentivo ainda permanece. É claro que estes CEOs são os Schuhmachers ou Sennas da administração, talentos que recebem merecidamente tais salários. Ao compará-los, todavia, com a média dos administradores, percebo que estes CEOs são gênios na arte de identificar relações causais entre os diferentes sistemas que afetam sua organização, o que os permite melhores decisões. Mais uma vez, o recado é claro.

Por fim, tenho a certeza de que administradores são, mais do que nunca, necessários, sobretudo por conta dos desafios atuais impostos pela necessidade de sustentabilidade e responsabilidade social. Contudo, tenho também a certeza de que os administradores não são  necessários na quantidade absurdamente alta e na qualidade absurdamente baixa com que são na média hoje formados. E você, de que lado gostaria de ficar?

Deixe um comentário