Para Stephen Kanitz: sobre Administradores e Ratos

Recentemente venho acompanhando curiosamente as discussões no blog do respeitado prof. Stephen Kanitz sobre o exercício da administração, sua regulamentação e o termo administrador. De forma quase persecutória, Prof. Kanitz defende que o termo administração deveria – por lei – ser reservado aos diplomados em administração, embasando seu argumento em outras profissões. Em um comentário curto no texto sobre o banco de Sílvio Santos, defendi que tal ponto de vista é utópico e talvez venha a ser prejudicial. E aqui explico o por quê.

No argumento do prof. Kanitz, encontram-se dois aspectos: primeiro a reserva do termo ‘administrador’ para diplomados em administração sob pena de falsidade ideológica e, segundo, a reserva de cargos de administração para administradores diplomados.

Para analisar o primeiro aspecto do argumento parto do Houaiss: administrar vem do latim administrare que significa ‘ajudar em alguma coisa, servir alguém, ocupar-se de, dirigir, governar, regrar, executar’. E mais, o Houaiss define administrador como: ‘que ou o que administra, gerencia; administrante’. Podemos contrastar essa definição com o termo médico no mesmo dicionário: ‘aquele que se formou em medicina e pode exercê-la; doutor’.

Como um entre muitos exemplos, o termo médico é utilizado para diferenciar a formação que habilita o exercício de uma determinada profissão. Já no caso da administração o termo surgiu para designar uma atividade, não uma profissão habilitada por uma formação específica. Isso vai de encontro à definição de administração por Fayol: ‘administrar é planejar, organizar, delegar, monitorar e controlar’ (tradução do alemão). Na cibernética, Ross Ashby apresentou seu método de resolução de problemas como 1. control: definir objetivos; 2. design: criar uma estrutura capaz de alcançar os objetivos; 3. regulate: executar e monitorar para o alcance dos objetivos. Ashby, influente na cibernética, proporcionou diversos insights para a gestão. E era médico. Fayol, considerado por muitos um dos fundadores da administração, engenheiro.

As semelhanças entre Fayol e Ashby residem na etimologia do termo administrar, como definido pelo Houaiss. Este se confunde com a arte de se resolver problemas de forma sistemática. Reservá-lo para diplomados em administração é portanto uma utopia completa. Mas, assumindo que assim o fizéssemos: qual seria o efeito?

Ora, se não somarmos à reserva por lei do termo, a restrição de cargos de administração para administradores diplomados, qual é o objetivo de se reservar o termo? Uma coqueluche para suprir o ego daquele que saiu da faculdade e ainda não tem idéia do que seu curso o proporcionou? Dessa forma, o primeiro argumento (a reserva do termo) só tem sentido se acompanhado do segundo (a reserva das posições). Caso contrário, por analogia, poderíamos pensar na medicina sendo exercida por enfermeiros. Qual a seria a utilidade do termo médico?

Eu também, como administrador, sofro na pele a falta da diferenciação de nossa qualificação. E acho, sim, que precisamos nos diferenciar – aplicar nossa própria disciplina na nossa classe! Isso falta! Considerando o salário médio de um administrador iniciante, observamos que a lei de mercado (tão conhecida por nós) nos fornece alguns indícios daquilo que de fato acontece. Refletindo a péssima qualidade média dos cursos de faculdades de esquina o diploma em administração tende a ser associado a “saber de tudo um pouco mas não saber muito de nada”. Infelizmente o mercado não busca generalistas (pelo menos no início da carreira). E pior, a péssima ênfase em disciplinas exatas no currículo do administrador o coloca em segundo lugar no raciocínio lógico, quando comparado com engenheiros.

Nesse contexto, concluo que reservar o termo administrador para os diplomados e por lei garantir que somente administradores possam assumir cargos de gestão (como sugere Prof. Kanitz) pode ter o mesmo efeito de reservar 40% de cotas para minorias nas universidades federais. Gera intrigas, pode reduzir a qualidade da gestão e, por fim, a reputação dos administradores não melhora. Defendo que esse processo é lento e deve ser fundamentado na intensa melhoria da qualidade dos cursos de administração. Parênteses: fiquei surpreso ao perceber que em Stuttgart, na Alemanha, o curso de administração tem fama de ser muito mais difícil que as engenharias – isso explica a empregabilidade do curso, a concorrência e a diferenciação. Partindo do princípio da lei da oferta e procura, nossos CRAs ofereceriam um melhor serviço aos futuros administradores se nos ajudassem a verificar a qualidade dos cursos de administração nas suas regiões, disponibilizando a informação abertamente.  Precisamos primeiro mostrar para que administradores são necessários, e não advogados, para então exigir o devido respeito do mercado. Se nos provarmos melhores que estudantes de educação física no exercício da gestão, Darwin garante a ocupação de cargos de gestão por administradores. Só assim mudaremos a definição do termo administrador no Houaiss. Enquanto essa diferenciação não existir concorreremos com todos – e com muita ênfase em todos.  Como dizia um amigo de graduação: respeito se ganha, não se decreta – você é um administrador ou um rato?

2 responses to “Para Stephen Kanitz: sobre Administradores e Ratos

  1. Saudações!

    Acredito que a discução do Prof. Stephen Kanitz é oportuna, acredito que ele deva fomentar a discução sobre a qualidade de nossos cursos de administração. Também não concordo com a definição de “contas” para administradores.
    Como bem dito por seu amigo, ser um administrador é entre outras coisas uma questão de respeito.

    Sucesso!

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