Management Wikileaks: ameaça às empresas ou arma da sociedade?

Recentemente primeiras páginas tem sido dominadas pelas notícias do site Wikileaks e pela prisão de seu fundador, o australiano Julian Assange. Por suposto caso de abuso sexual Assange está preso na Inglaterra. Alegando nenhuma relação com o vazamento de cerca de 1.300 telegramas entre diplomatas e o governo, os EUA correm atrás do prejuízo da confirmação pública da sua arrogância. A prisão de Assange, legítima ou não, emite o sinal que o governo americano não está disposto a se sentir ameaçado pela segurança de sua própria criação: a internet. E isso até certo ponto funciona, intimidando aqueles que se dispõem a publicar documentos vazados. Contudo, do ponto de vista do estado, não resolve o problema, pois os ‘dedos-duros’ permanecem protegidos. E mais, se Assange não se manifestasse, talvez não ainda saberíamos quem idealizou o Wikileaks. Seu orgulho pessoal possivelmente o custou a liberdade (pelo menos temporariamente).

Do ponto de vista social, o Wikileaks escancara uma característica básica dos sistemas sociais: sua intransparência. Nenhum indivíduo conhece os limites da sociedade (ou da organização) embora a sociedade (ou as organizações) os conheça. Isso permite que comunicações confidenciais ultrapassem os limites do governo aos quais pertencem, sejam divulgadas e reconhecidas como pertencentes a este, causando as repercussões observadas atualmente na mídia. Essa intransparência tornou-se pré-requisito para a diferenciação funcional e o crescimento dos sistemas sociais, afinal, imagine se todo funcionário de uma empresa tivesse que conhecer e concordar com absolutamente todas as decisões organizacionais? O crescimento tornaria-se inviável. E mais, a diferenciação funcional da sociedade atual só foi possibilitada porque organizações tornaram-se independentes de características específicas de cada indivíduo. Através de posições e descrições de cargos, como o estagiário, o analista e o chefe, organizações generalizam expectativas e se isolam de outras características do indivíduo. Ser um bom pai, religioso ou não, participar do clube de tiro etc. não conta mais. E se contar, corre o risco de ser tratado como corrupção, discriminação etc.

O indivíduo, todavia, encontra-se obrigado a se dividir entre diversos sistemas sociais: família, empresa, governo etc. e é provável que tensões entre exigências do papel de cada sistema apareçam. E são essas tensões, protegidas pela intransparência de cada sistema,  que sugerem ações como o vazamento de informações confidenciais. Pressionado por questões ecológicas, sociais e econômicas, contradições entre objetivos organizacionais e os princípios de cada um culminam com a revolta contra o próprio sistema, seja através da geração de um sistema paralelo (o governo dos traficantes em favelas), seja através da exposição de comunicações internas do sistema.

A intransparência, todavia, não se restringe ao governo americano. Toda e qualquer organização, hierárquica ou não, é intransparente. Adicionando à essa intransparência a facilidade de divulgação anônima de informações proporcionada pelo ‘cloud computing‘ e o invariável conflito de interesses causado por funções sistêmicas distintas (organização: lucro, política: poder, moral: certo/errado) tem-se: dinamite. É uma questão de tempo para que informações sigilosas alcancem o público.

Nesse contexto, empresas sentem-se reféns de suas próprias estruturas: por um lado, orgulham-se de sua meritocracia, alegando critérios de desempenho ‘objetivos’, por outro, vêem-se obrigadas a tomar extremo cuidado com cada indivíduo e seus conflitos. E desta forma emerge uma nova ferramenta (ou arma?) para a sociedade: o poder da informação. Aspectos sociais e ecológicos tornam-se obrigações para qualquer empresa não somente pelo simples perigo de, num futuro de médio prazo, perder market-share para a concorrência por conta de uma sociedade supostamente mais educada e exigente. O receio de se tornar exposta por incongruências entre o falar e o fazer obrigam empresas a agir hoje, incluindo seriamente preocupações sociais e ecológicas e mantendo suas preocupações econômicas, todavia cada vez mais racionalizadas apenas a posteriori com ‘objetivos legítimos’. De fato é um paradoxo: organizações tornam-se transparentes para a sociedade por serem intransparentes a si mesmas.

Do ponto de vista organizacional reações são lentamente percebidas: computadores sem acesso à internet, contratos de segurança da informação abusivos e descabidos, USB-sticks banidos etc. O que as organizações não percebem é que essas medidas apenas ressaltam seu medo, sem corrigir o ‘problema’. Enquanto indivíduos forem responsáveis por organizações e estas buscarem crescer de alguma forma, esta característica permanece. O que pode ser feito?

Não existe escapatória: apenas o tratamento coerente de aspectos sociais, econômicos e ecológicos pode proteger organizações de seu próprio destino. Seria um paralelo ao ‘pensamento correto, ação correta’. Isso exige da organização reconhecer que a sociedade exibe, com o fenômeno Wikileaks (cuja natureza não se extinguirá, com ou sem Assange), a indisposição de conviver com organizações arrogantes e hipócritas. Mais: esse fenômeno demonstra que a sociedade está pronta para eliminar aquelas organizações que são julgadas como tal e esse é um preço justo a ser pago. Empresas terão que aprender a lidar com essa característica, independentemente do tratamento que conferirem ao fenômeno: potencial de ameaça ou de diferenciação.

Eu, pessoalmente, acho que precisamos com urgência de um EnvironmentalLeaks.br, um ManagementLeaks.br e um CorruptionLeaks.br, todos com ‘ponto br’ em evidência. Embora eu creia que isso seja apenas uma questão de tempo, o quanto antes conseguirmos observar práticas ecológicas, governamentais e de gestão brasileiras, antes acordaremos para uma realidade ainda oculta. E nesse ponto talvez tornaremos o que Thomas Friedman chamou de ‘festa da sustentabilidade’ em uma revolução sustentável.

One response to “Management Wikileaks: ameaça às empresas ou arma da sociedade?

  1. Excelente percepção do significado do Wikileaks para a sociedade e, mais especificamente, para as organizações corporativas. Já que fica inviável auditar toda simples decisão, indivíduos esclarecidos aceitam confiar em governos e corporações, desde que não se quebre o pacto de confiança. Isso vale para cada pessoa e para qualquer instituição. E a verdade uma hora ou outra vem à tona. Se os valores éticos de uma empresa ficarem sujeitos aos interesses financeiros, algo está errado e precisa ser corrigido.
    Maquiavel estava certo na monarquia, mas entra em xeque nesse novo contexto em que o peão pode virar rei.

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