Administração: para onde vamos?

Já faz algum tempo que dedico tempo para estudar, analisar e aqui discorrer sobre técnicas e tendências que podem formar o conjunto de princípios da administração do amanhã. A cada livro, blog ou revista especializada, desde os nossos gibis de botequim, que alegam ser algo próximo de científicos, até renomadas publicações na área, como a Harvard Business Review ou a MIT Sloan Review, observo nas entrelinhas que, dentre as saudadas novas técnicas, pesquisas e conhecimentos publicados, encontram-se, subliminares, algumas tendências não publicadas. De forma provocativa, resumo estas abaixo:

1. De novo mesmo, somente os termos. Teorias são reinventadas, novos nomes são criados, mas no âmago, a administração em si, como definida por Fayol e alegada científica por Taylor, não mudou. Resume-se ao controle ótimo de uma organização através da avaliação do resultado atual versus um resultado previamente planejado. Embaixo desse guarda-chuva acabaram entrando diversos campos do conhecimento, da psicologia até a neurofisiologia e avanços inimagináveis da matemática e da computação. Chegamos ao ponto em que algumas revistas de administração mais parecem cadernetas de auto-ajuda do que revistas científicas e, embora o termo ‘administração’ seja utilizado indiscriminadamente, pouco se pode reconhecer da relação daquilo que se lê com a ciência da administração. E, nesse contexto, surge a próxima pergunta:

2. Mas, afinal, o que é administração? A confusão entre o termo ‘administrar’ e a ciência da administração, esboçada em um post anterior é apenas um sintoma de um problema muito mais amplo. Aos formados em administração pergunto: o que é administração? O que você estudou? De pronto, não é fácil achar uma resposta para essa pergunta. Nossos cursos fornecem um conjunto de práticas e conhecimentos comumente utilizados nas organizações. Mas são raros aqueles que efetivamente nos ensinam qual a natureza de uma organização e como administrá-la. É como se quiséssemos treinar um futuro craque ensinando-o a chutar, passar a bola, correr etc. sem nunca colocá-lo no campo ou explicá-lo quais são as regras do jogo de futebol. Perdidos, nos agarramos em estratégia, marketing, contabilidade, recursos humanos, controladoria e assim por diante, raramente nos perguntando qual é a natureza da organização. O que a diferencia de outros sistemas? O que é e qual é a função da administração? E, por fim, como executá-la?

3. Faça o que eu digo, não faça o que eu faço. A falta de clareza sobre o que é administração tem como conseqüência a possibilidade de qualquer um discorrer sobre o tema. Diversos pesquisadores, consultores, professores etc. das mais diversas áreas do conhecimento escrevem, recomendam, oferecem treinamento, dão consultoria, sem mesmo ter tido uma única experiência prática com a administração de uma organização. Exemplos mais clássicos são palestrantes sobre o mercado financeiro. Cheios de dicas e técnicas de como “deveríamos comprar em baixa e vender em alta” vendem-se a um público desesperado. Quantos deles é, efetivamente, milionário? Mas não é somente no mercado financeiro que observamos que a pesquisa (ou algo parecido com isso) se descolou da prática. Modelos matemáticos na economia freqüentemente assumem uma concorrência perfeita e um mercado em equilíbrio, a partir dos quais bilhões são gastos em consultoria e milhares de livros são publicados. Mas como diz a sabedoria popular: “na prática, a teoria é outra. Faça o que eu digo, não faça o que eu faço.”

4. Dirigindo olhando pelo espelho. É claro, uma parcela do mercado de publicações não sucumbe e reage ao ponto 3. Como? Um apelo geral ao uso de estudos estatísticos. Dissemina-se à idéia de que, para se publicar algo em alguma revista de renome, ajuda (e muito) incluir dados estatísticos que comprovam (?) a hipótese apresentada pelo autor.  Baseando-se em dados arrecadados com muito cuidado, conclusões precipitadas são deduzidas assumindo-se que o comportamento passado se repetirá no futuro. Funciona? Como então explicar a última crise financeira mundial? A previsão do tempo nos mostra que em um sistema complexo generalizações não podem ser feitas indiscriminadamente. E mais, utilizar o passado inibe a criatividade e o esforço intelectual, resumindo nossa inteligência à análise de ‘best-practices’. Ora, ‘best-practices’  eram diferenciais competitivos, por definição, quando ainda não eram ‘best-practices’.

É claro que não podemos generalizar. Existem algumas pesquisas sérias que efetivamente contribuem para um mais profundo entendimento de como administrar. Exemplos são os avanços em áreas como a  neurofisiologia do cérebro que nos permitem melhor entender a interação entre emoções, linguagem e tomada de decisão bem como novas teorias sociológicas que nos permitem entender melhor como sistemas sociais se comportam. Todavia, observo que na explosiva quantidade de publicações em administração os quatro  aspectos acima citados estão cada dia mais evidentes.

Nesse contexto, a prof. Lynda Gratton, em um curto texto da Harvard Business Review, cita que o gerente de médio escalão poderá, no futuro próximo, desaparecer. Aquele velho amigo, generalista, cujo trabalho é planejar e controlar outras pessoas será, na opinião de Gratton, substituído pelo computador ou por equipes auto-gerenciadas. A saída? Gratton sugere que apliquemos nossos conhecimentos de administração à nossa profissão. Assim, devemos desenvolver um conjunto de conhecimentos que seja valioso e raro, mantendo nosso diferencial competitivo no mercado. E quais são esses conhecimentos? Ela cita, entre outros: conservação de energia, empreendedorismo, criatividade, inovação e ciências da saúde. Novidade!

Se Gratton estiver correta, teremos no futuro organizações amplamente computadorizadas, cujos funcionários farão apenas aquilo que o computador não conseguirá fazer: criar! E, na visão dela, o gestor de médio escalão não precisa criar, pois se precisasse, ele não poderia ser substituído. Neste cenário, sobrariam, além dos executores, apenas o alto escalão: diretores e presidência. E neste andar é justamente a criação aquilo que mais interessa. Novas idéias (pense no Facebook!) que contaminam o mercado tornando-se o sucesso em questão de horas movem a organização. Mas quantos destes administradores de alto escalão é formado em administração? Não seriam eles nossos Robinhos, Ronaldinhos e Pelés do mundo dos negócios? Artistas que por conta de sua inteligência, sorte e capacidade intelectual chegaram onde chegaram? E para eles, precisamos da administração como ciência, na forma que ela hoje se encontra?

Na minha opinião: sim e não. Sim, precisamos da administração como ciência do controle ótimo de um sistema social específico: a organização. E não. Não da forma com que ela hoje se encontra. Não na direção na qual ela se desenvolve. É claro que alguns gerentes de médio escalão serão trocados por máquinas. Como alguns cirurgiões, dentistas e advogados também. Aqueles que se resumirem à identificação e aplicação de ‘best-practices’, à utilização do conhecimento existente, sempre olhando pelo espelho, serão substituídos. Todavia, uma organização não é uma máquina, assim como uma cirurgia não é um quebra-cabeça. A capacidade criativa é determinante. Tornar e manter uma organização de ponta necessita constante renovação! E na administração esta renovação não pode se limitar ao alto escalão com o apoio de máquinas. Inovar nesta ciência necessita maior foco no seu âmago: a organização como um todo indivisível. Adicionar ao nosso portfolio conhecimentos de outras disciplinas, como a psicologia, a computação e a matemática, só se tornará valioso e raro caso consigamos efetivamente conectá-los à organização e à sua natureza. Não podemos esquecer: nosso objeto é e sempre será a organização e seu controle ótimo. Assim, creio que se somarmos a este foco bem delimitado experiências práticas e nos livrarmos das amarras da matemática e estatística, utilizando-as com consciência, seremos capazes de efetivamente criar algo de novo. E para criativos inovadores, diria Gratton, o emprego estará garantido, pelo menos nas próximas décadas.

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