A origem da esquizofrenia organizacional

Crises de ansiedade, pânico, síndrome de burnout, estresse e os problemas psicossomáticos relacionados fazem parte do dia a dia de gestores em qualquer organização. De todos os lados surgem vozes exigindo lucro, responsabilidade social, ambiental, política e assim por diante. Desamparada, na tentativa de combater estes sintomas de uma sociedade que hoje confronta uma série de problemas conflitantes, a administração tem buscado na filosofia oriental, na própria igreja e na auto-ajuda por indícios de saída. Isso ficou muito claro em uma das maiores conferências em administração do mundo, a Academy of Management realizada em 2011 em San Antonio, Texas. Com o tema principal “Ocidente encontra o Oriente”, seu programa estava repleto de seções com monges budistas, nas quais se podia até exercitar Yoga e meditação. Um belo exemplo da falta de amparo encontrada pelos administradores.

Mas quais são as origens desta esquizofrenia? Alguns poderiam alegar que antes mercados eram mais estáveis, problemas ambientais não eram tão graves e os limites nacionais regulavam a economia com mais sucesso. Todavia, embora alguns desses argumentos sejam válidos, a necessidade de se decidir em meio a objetivos conflitantes sempre existiu. A única diferença é que anteriormente podíamos condensar todos os objetivos em um único número: o lucro. Hoje não.

Contudo, isso ainda não explica a ansiedade. Apenas nos sugere que temos que avaliar diversos pontos de vista antes da tomada de decisão. Mas de onde surge então a esquizofrenia? A resposta está em uma mistura de filosofia, cognição e matemática. Em 1969 um matemático brilhante chamado George Spencer-Brown publicou uma obra bastante controversa, chamada “Laws of Form”. Com uma notação inovadora e um estilo matemático, Spencer-Brown estipulou o que eu chamo de os princípios matemáticos da cognição. Seu trabalho explica como, através da cognição criamos o mundo em que vivemos. E mais, demonstra as operações que utilizamos sem perceber em nosso dia a dia e, principalmente, seus limites.

Justamente aí reside a explicação cognitiva para a esquizofrenia organizacional. Segundo Spencer-Brown, nossa operação cognitiva básica é a distinção. Nós criamos um mundo através de distinções entre “o que é” versus “o que não é” ou “todo o resto”. Assim, quando nos referimos a, por exemplo, uma maçã, só conseguimos entender o que é a maçã porque ao mesmo tempo sabemos o que ela não é, ou seja, todo o resto. Paradoxalmente precisamos conhecer “todo o resto” para sabermos o que é a maçã! E exatamente a necessidade de sabermos “o que não é” para definirmos “o que é” que nos limita, por exemplo, na definição e explicação do que é a vida. Como não conseguimos cruzar os limites da vida, para de fora observá-la, não conseguimos definí-la. E nesse processo, criamos especulações das mais variadas. Tornamo-nos tão presos à vida que projetamos uma continuação dela após a morte, após cruzarmos os limites da distinção, ou criamos um criador, mas nos proibimos de perguntar pelo criador do criador.

Uma propriedade interessante da teoria de Spencer-Brown é que quando utilizamos uma distinção para indicar alguma coisa, por exemplo, quando usamos a distinção entre economicamente viável e não viável, esta distinção torna-se um ponto cego, torna-se um contexto a partir do qual construímos aquilo que chamamos de realidade. Isso é, conseguimos classificar qualquer coisa como economicamente viável ou inviável, menos a distinção viável ou inviável em si. Para isso, precisamos outra distinção. Interessante é que Spencer-Brown demonstra matematicamente (e brilhantemente) que para mudarmos a distinção precisamos de tempo. Assim, mudar o contexto da distinção economicamente viável/inviável para ambientalmente viável/inviável requer tempo e, como nossa cognição opera somente com uma distinção por vez, não conseguimos, por limitações cognitivas, simultaneamente utilizar duas distinções. Além disso, Spencer-Brown nos mostra que cada distinção é uma construção individual, dependente do observador e de suas motivações. Isso é, na prática, o significado de maçã, economicamente ou ecologicamente viável é, para cada um de nós, diferente.

O trabalho de Spencer-Brown nos oferece duas notícias com relação à esquizofrenia organizacional: uma boa, outra ruim. A notícia boa é que as nossas limitações cognitivas são a efetiva causa da esquizofrenia organizacional. Pois a necessidade de tempo para mudar de uma distinção para a próxima se reflete na constante pressão que temos para avaliar decisões em diversos contextos, econômico, ambiental, social e assim por diante. Além disso, a dependência do observador de cada uma destas distinções nos obriga a observar outros observadores. Isso é, não basta tomarmos decisões que, do nosso ponto de vista, sejam viáveis do ponto de vista econômico ou ecológico. Precisamos observar o mercado para identificar o que este identifica como econômico. Ou observar ONGs e ambientalistas para observar qual é a distinção que estes utilizam para a viabilidade ecológica. Por fim, precisamos ainda observar a necessidade organizacional por decisões.

A notícia ruim é que essa causa não pode ser eliminada. Por limitações cognitivas não conseguimos agir diferente. E isso explica a razão de constantemente tentarmos reduzir diversos contextos a um único número, a uma distinção única. Infelizmente isso não é possível. Mas essa notícia não é de todo ruim. Reconhecendo nossas limitações cognitivas, podemos optar por abandonar a ilusão de controle, onipresença e onipotência dos gestores, decentralizando a organização. Estabelecendo uma rede com outras organizações, diminuindo a probabilidade que distinções importantes sejam ignoradas. Agora, na hora da decisão, infelizmente, você terá que optar por uma distinção única, ou um compromisso entre elas. Mas atingir o compromisso invariavelmente tomará seu tempo e seus nervos.

9 responses to “A origem da esquizofrenia organizacional

  1. Bravo!!!! Você conseguiu descrever a pressão que representa a chuva de estímulos de todo tipo a que estamos expostos atualmente, diante das constantes inovações que se fazem necessárias para a manutenção da competitividade e da empregabilidade. Passou pela neurociência (fisiologia da Atenção), pela Teoria da Gestalt (sistemas de percepção seletiva), pelas teorias sobre moral, ética, bem e mal, certo e errado que ocuparam as mentes de grandes filósofos da história como Nietzsche, Aristóteles, Santo Agostinho, Socrates, Max, Freud e outros e ainda atribuiu um diagnóstico ao quadro atual da Administração. Mostrou com clareza que nosso grande problema atual é exatamente a subjetividade/intangibilidade dos nossos problemas, que não podem ser definidos ou descritos ao certo. Nossas buscas enquanto consumidores estão cada vez menos palpáveis e, consequentemente, as metas organizacionais mais volúveis do que nunca, tornando-nos vítimas de nossos próprios comportamentos de consumo. Justamente por que a capacidade de processamento do Ser Humano em absorver, internalizar e acomodar-se a essas mudanças requer um tempo infinitamente menor que a velocidade da incidência de novos cenários, exigindo novas mudanças. Isso nos coloca em posição de nunca podermos nos acomodar. Realmente uma esquizofrenia administrativa. Parabéns novamente!

  2. Minha interpretação, embora não muito elaborada, pois estou entrando numa mesa de cirurgia amanhã e estudando para concurso público, acaba de ser postada. Aguardo seu feedback, ainda que seja composto de críticas. É na divergência de idéias que se evolui intelectualmente.
    Agora, admito! Foi com grande esforço que busquei alcançar toda a abrangência dos recursos utilizados em sua defesa do tema. Mas foi um verdadeiro “orgasmo intelectual”.

    1. Cara Scilla,

      Obrigado pela resposta! Gostei bastante do seu texto, acabei de comentar no seu blog. Confesso que me despertou a curiosidade de ler alguns autores que estão na minha lista como Weber e Durkheim. Esses impulsos são sempre valiosíssimos na nossa evolução intelectual, não?! Mais uma vez desejo-lhe uma rápida recuperação!

      Um abraço.

  3. Quem sou eu?… Eu que agradeço, Mestre! E já estou de volta, apenas me recuperando dos alinhavos médicos. Logo estarei “a todo vapor” novamente nos meus estudos. Grata pela preocupação.
    Peço que me repasse mais informações sobre o nível de abrangência do Suply Chain Management na Europa, em especial na Alemanha. Tenho uma teoria de que talvez, nesses países mais desenvolvidos, a Logística já tenha tornado o Marketing uma arte quase totalmente substituível, pois aquela já absorveu as funções deste com a racionalização do consumo e dos critérios de valor no mercado. “The right thing, on the right time, on the right place, by the right way, to the right people, as well as they expected it to be done.” Então pergunto: seria a Logística parte do Marketing ou vice-versa?

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