A máquina quebrou. Nasce a administração sistêmica.

Charlie Chaplin em Tempos Modernos

Já nos anos 30 Charlie Chaplin criticou com maestria a mecanização do ser humano, resultante da revolução industrial. Mas Tempos Modernos permanece muito mais atual nas organizações do que imaginamos. No íntimo, gestores e consultores acreditam que são nada mais do que engenhosos mecânicos, capazes de identificar as engrenagens organizacionais, lubrificá-las adequadamente, mantendo o mecanismo em perfeito funcionamento. Essa ilusão de controle se revela nos manuais da administração moderna, recheados de correlações entendidas como relações causais capazes de levar qualquer um ao sucesso. Ironia, não?

Contudo, a complexidade da máquina algemou o mecânico. Enquanto o planeta sofre com as influências do ser humano, cada decisão organizacional assume um caráter não somente econômico, mas também político, legal, social e ecológico, só para citar algumas das mais importantes dimensões. A complexidade da criação dominou o criador, a organização adquiriu vida e passa a decidir seu próprio futuro, enquanto gestores e consultores, seus mecânicos, em estado de choque tornam-se meros esquizofrênicos em um meio ininteligível. E mais, grande parte da ciência da administração continua míope, se alimentando da própria e falaciosa promessa de desvendar a máquina, solucionar seus paradoxos, curando-a e restabelecendo o poder do mecânico. Ledo engano.

Motivado por uma sociedade estratificada, esse modelo organizacional foi inspirado nos exércitos, na coordenação do trabalho pelo poder do estado. Entretanto, hoje o poder se diversificou. Economia, política, meios de comunicação, educação, cada sistema possui sua moeda de troca. E através dessas diferentes moedas de troca, cada um destes sistemas exerce seu poder em toda, eu disse toda, organização. Enquanto antigamente a máquina tinha um critério de operação bem definido, o fim econômico, hoje os critérios são diferentes e controversos. Com isso, a estrutura fundamental da máquina se quebrou. Suas leis físicas deixaram de valer. Melhores, mais bem formados e diferentes mecânicos não são capazes de resolver o problema, pois não entendem seu funcionamento.

Administrar requer novos – ou o devido reconhecimento de nem tão novos assim – paradigmas, requer uma nova física da organização. Esses paradigmas tem sido desenvolvidos na periferia dos grandes palcos da ciência e da prática da administração, no que eu chamo de administração sistêmica. Não confunda, contudo, o termo sistêmico na sua mais ampla definição com sistemas mecânicos. Diferente da abordagem mecânica, a administração sistêmica tem como seu pilar fundamental o reconhecimento da organização como um tipo específico de sistema, que obedece suas próprias leis, sua própria física. Incompatível com a física newtoniana, essa física é caracterizada pelo fato de seu elemento básico, a decisão organizacional, fundir diversos outros sistemas. Cada decisão integra, invariavelmente, motivos e restrições não só organizacionais, mas também ambientais, pessoais, econômicas, políticas, legais e assim por diante. Consequentemente, cada decisão se revela um intrínseco paradoxo, a origem do mecânico esquizofrênico, pois a melhor decisão econômica pode ser a pior decisão social! O paradoxo assume caráter de propriedade fundamental da organização e deixa de se revelar um sintoma.

Nesse contexto, métodos da administração sistêmica, fundamentados sobretudo na análise funcional, auxiliam decisões apesar do paradoxo, em um infinito processo de aprendizado. O mecânico deixa suas ferramentas, torna-se parte de um organismo em constante tensão, capaz de aprender com seus próprios erros e evoluir. A diferente postura da administração sistêmica com seu objeto de estudo deu origem a um novo vocabulário, mais complexo porém muito mais poderoso para descrever o fenômeno organização. E é justamente esse poder que se revela hoje o pré-requisito na administração de modernas organizações, onde engrenagens hierarquicamente ordenadas dão espaço para a evolução orgânica, baseada em uma estrutura em rede.

Diversos casos de sucesso confirmam os novos paradigmas, mesmo quando emergem na própria prática. Um exemplo disso é o processo de planejamento de vendas e operações, também conhecido na sigla em inglês, o S&OP. Este processo reúne diversos conceitos básicos da administração sistêmica que fundamentam e justificam seu comprovado sucesso. Outro exemplo é trazido no interessante artigo de Gary Hamel na Harvard Business Review de dezembro passado. Hamel descreve uma empresa no segmento de produtos de tomate que, pasme, não possui hierarquia. Uma indústria, não uma ONG no ramo de software livre, sem chefes e líder de mercado! Um paradoxo quando abordado de uma perspectiva organizacional mecânica perfeitamente inteligível de uma perspectiva sistêmica.

E você? Sabe quais são estes paradigmas? Ou permanece um mecânico com um martelo em riste, para o qual o mundo é feito de pregos? Se ainda não sabe e quer saber mais, continue nos acompanhando. Nos próximos posts explorarei alguns dos principais conceitos da administração sistêmica e suas aplicações. Boa leitura!

4 responses to “A máquina quebrou. Nasce a administração sistêmica.

  1. Olá Donald. Sou um grande fã do blog e dos seus textos. Todas as vezes que recebo feed que há novo post, sempre me entusiasmo com o conteúdo que vou ler. São raras encontrar abordagens tão conscientes em administração. Procuro sempre pesquisar as fontes que você cita por aqui. Meu acervo ainda é pequeno, mas um dos autores da atualidade que trabalha com essa postura em administração, é Clayton Christensen, que você acha sobre?

    Um abraço e parabéns.

    1. Caro Carlos,

      obrigado pelo comentário! Fico feliz você tem gostado dos textos. Dos trabalhos do Christensen, conheço apenas o The Innovator’s Dilemma. Definitivamente vale a leitura e de fato ele tem uma visão sistêmica da organização, sobretudo do papel da inovação. Com certeza é uma ótima referência e creio que os outros trabalhos dele, embora com grande foco no problema da inovação, sejam também muito bons. É importante contudo, manter as ideias dele no contexto, isso é inovação, com cuidado ao generalizá-las, o que sempre pode se revelar um perigo. Aliás, como qualquer ideia mirabolante que torna alguém um herói, como você mesmo descreve no seu blog. Muito bom ponto de vista!

      Um abraço e muito sucesso na busca por uma administração efetivamente científica!!

      p.s.: Se os textos continuarem a te inspirar, por favor, divulgue o blog entre seus amigos e professores. Quanto mais retornos recebemos, como você bem sabe, maior a motivação!

  2. Olá Caro amigo…..
    Mais uma vez leio um texto seu de grande efeito sobre a busca, entendimento e conhecimento na Administração no qual sou Estudante e Entusiasta. Gostei como expôs e fez referência a engrenagem como uma máquina, vimos isto acontecer a todo momento gestores tratando de forma fria e inanimada a dinâmica administrativa esquecendo que nas tratativas estão pessoas e pessoas requerem atenção para aspectos motivacionais, senão correremos o risco de ficarmos tão dependentes dessas “engrenagens” que entraremos em colapso…..

    1. Olá Francisco,

      Pois é, você tem toda razão. O que acho interessante é que muita gente diz, “ah, isso já é conhecido!”. Mas aí me pergunto, se já é tão amplamente conhecido que esse modelo quebrou, então por que temos insistido em colocar governantes tecnocratas, praticamente engenheiros econômicos nos postos mais altos dos governos? A única resposta que me parece plausível é que continuamos nos iludindo com a imagem americana do mecânico (leia-se economista, soldado, administrador, etc.), que supostamente sabe qual parafuso tem que apertar. Nesse caminho, afundam-se não só organizações, mas também países como alguns da zona do Euro, e, pior, afunda-se exatamente a motivação, o senso de valor de nações inteiras. E esse valor, nada monetário, mas facilmente monetizável, é muito difícil de ser recuperado.

      Um abraço!

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