Redefinindo a Administração e o Administrador

Há alguns posts venho expondo pontos de vista derivados de uma visão construtivista da organização, embasados sobretudo na teoria de sistemas sociais. Por exemplo, aqui discuti por que sistemas sociais (e organizações) não são causais e como, apesar disso, nos iludimos com a capacidade de controle. Mas desta mudança de paradigma uma questão bastante básica emerge: ora, se sistemas sociais não são previsíveis, como crises econômicas tem demonstrado,  nem controláveis, como diversas falências nos comprovam, então que raios é administração? Nossa história tem suportado que as principais funções da administração estão ligadas ao ciclo planejamento, execução e controle; é, o velho ciclo PDCA. Mas se organizações não são previsíveis nem controláveis, o que nos resta para administrar?

Para responder o que é a administração precisamos entender seu objeto de estudos: a organização. Como discuti aqui, organizações são nada mais do que nexos, redes de decisões que se (re-)produzem. Nessa rede, cada decisão estabelece e indica uma diferença, uma opção selecionada entre alternativas, igualmente construídas. Da mesma forma que estruturas psíquicas constroem o indivíduo, do conjunto de decisões organizacionais emerge o que conhecemos por organização. Isso é, como o sistema social organização “se vê”, “se define” e “se entende” em seu meio. Desta forma, não podemos atribuir ao administrador a arrogância de conhecer a organização e conseguir, portanto, administrá-la no sentido usual. O administrador é apenas mais um nó nessa rede de decisões. Sem a capacidade de observar o nexo de decisões por completo, pois decisões são tomadas simultaneamente, o administrador fica restrito à singela tentativa de irritar, influenciar a organização. Mas quem, em última instância, decide se adota as “sugestões” do administrador são as decisões organizacionais que se seguem, da mesma forma que o time de futebol é quem decide se adota ou não as instruções de seu técnico.

Essa visão é bem mais modesta do que a premissa de causa e efeito comumente assumida pela administração geral e suportada pela visão do administrador como o “salvador da pátria”, aquele “que leva a organização nas costas”. Mas essa reflexão ainda não nos responde qual é, nesse contexto, a função do administrador. Se não pode planejar e controlar, o que ele faz e como pode fazê-lo? Retornando à natureza da organização, decisões só são possíveis e aceitas porque estruturas organizacionais restringem o fluxo de decisões possíveis. Essas estruturas, decisões em si, nada mais são do que expectativas. Um exemplo deste tipo de estrutura de expectativas são processos organizacionais, a hierarquia ou objetivos. Um processo estabelece como determinadas tarefas ou decisões sejam realizadas. A hierarquia aumenta a probabilidade da decisão do chefe ser aceita, pois coloca a filiação do subordinado em risco. Mas observe, a aceitação da decisão não é garantida, não existe um processo causal, pois a efetiva obediência do processo ou da hierarquia no dia a dia é outra história. Da mesma forma com objetivos. Estes fornecem um parâmetro para avaliar outras decisões. Mas são também nada mais que expectativas.

Neste contexto as funções de planejar e controlar recebem nova luz. O planejamento se traduz na geração de um conjunto de expectativas formais, documentadas na organização. E controlar torna-se a atividade de verificar se algumas destas expectativas foram atingidas. Ou seja, o administrador nada mais é do que um “gestor de expectativas”. Através da decisão e da comunicação sobre um subconjunto de expectativas ao seu alcance o administrador irrita a organização, que, por sua vez, interpreta sua tentativa. Esta perspectiva explica a atual dificuldade em se definir “administração”. Sobretudo porque explica não somente os paradoxos encontrados por administradores no seu dia a dia, mas também a heterogeneidade de temas abordados nesta disciplina. Variando desde métodos matemáticos para a escolha ótima entre alternativas até processos psicológicos que fundamentam a liderança, todos os temas relacionados tocam, invariavelmente, a natureza da decisão e as expectativas organizacionais.

Esta visão traz entre diversas conseqüências a retirada do administrador do pedestal. Afinal, seu espaço para manobras é muito inferior do que pensávamos. A administração assume um caráter menos técnico, voltado à otimização de decisões, contudo mais sistêmico e intrinsecamente baseado na comunicação. Isso porque expectativas organizacionais não se resumem à tomada da melhor decisão de mercado. Muito mais do que isso, incluem não somente a geração de novas expectativas mas também uma rede adequada comunicação para que estas se tornem aceitas e estabilizadas na organização. E grandes administradores reconhecem isso com maestria. Reconhecem que são iminentemente limitados e, portanto, se utilizam de importantes nós na rede de expectativas para mover e transformar organizações. Recebem, todavia, os louros que deveriam sim coroar a organização como um todo.

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