Pensamento sistêmico: mas que diabos é isso?

Assim como uma rede é confeccionada com uma série de nós, tudo, neste mundo, possui também uma série de vínculos. Se alguém pensar que a malha de uma rede é coisa independente ou isolada, estará equivocado. Uma rede é feita com inumeráveis malhas interligadas, tendo cada malha o seu lugar e responsabilidade em relação às outras.”

Siddharta Gautama

As palavras de Buda, um dos maiores pensadores sistêmicos da humanidade, sugerem que os princípios do pensamento sistêmico nada têm de novo. Filósofos da antiga Grécia já reconheciam a importância desta abordagem, como demonstra a frase de Aristóteles: “o todo é mais do que a soma das partes”. Contudo o desenvolvimento sobretudo da matemática e da física por figuras históricas como Isaac Newton e René Descartes contribuíram para o que conhecemos como o método científico atual. Privilegiando a relações lineares de causa e efeito e o reducionismo exagerado, representado sobretudo pelo atomismo, este método científico figura como base para nosso conhecimento atual, desconectado. Assim, aprendemos desde a escola a matemática, a física e a química. Na faculdade aprendemos teoria geral da administração, marketing, finanças e produção. As organizações estão literalmente aprisionadas em departamentos, áreas funcionais e níveis hierárquicos. Todos estes fatos demonstram que a visão inicial, que privilegia o todo, rapidamente se perdeu.

O sucesso dos métodos cartesianos, todavia, não foi em vão. A abordagem reducionista nos permitiu criar maravilhas, como automóveis, telefones celulares e pousarmos na lua. Contudo, o escopo restrito desta forma de se abordar o mundo não nos permitiu vislumbrar o real custo de todas estas parafernálias criadas por nós mesmo. Somente hoje temos (infelizmente nem todos) uma visão clara de que nosso planeta possui capacidade limitada, tanto de produção de matéria quanto de absorção de resíduos.

Catatônicos observamos a armadilha que preparamos para nós mesmos. O estado de choque é justificado pela incapacidade de se entender, a partir dos conceitos ortodoxos de ciência, a relação existente entre nossas ações no tempo. Surge assim a necessidade de uma nova linguagem capaz de lidar com as complexas relações existentes na natureza considerando-se um escopo mais amplo.

Esta nova linguagem começou a ser formalizada nos anos 20 com o trabalho de pesquisadores nas mais diversas áreas do conhecimento. O objetivo era o mesmo: criar-se uma “teoria geral”, capaz de descrever as inter-relações entre partes, permitindo-se entender e prever o comportamento de qualquer sistema. Com isso, o foco principal desta nova teoria deixa de ser o domínio em questão e passa a ser a relação entre as partes, que constituem o todo. A essa nova teoria deu-se o nome de Teoria Geral dos Sistemas e um dos expoentes na sua criação foi o biólogo Ludwig von Bertalanffy.

A teoria geral dos sistemas expandiu-se rapidamente incorporando as mais diversas disciplinas, da cibernética à teoria de controle. Embora inicialmente bastante matemática, percebeu-se que os conceitos desta teoria possuem aplicação vasta nos mais diferentes domínios, da psicologia, filosofia, sociologia à engenharia. Não demorou para que estes conceitos alcançassem a administração. Nos anos 50 Jay Forrester, um extraordinário engenheiro no MIT, desenvolveu o que hoje é conhecido como System Dynamics, uma técnica formal de modelagem que nos permite não só descrever um sistema qualquer, mas também simulá-lo computacionalmente.

Diversos trabalhos utilizaram a técnica desenvolvida por Forrester, dentre os quais um dos mais conhecidos é o trabalho do Clube de Roma resumido no livro Os Limites do Crescimento. Muito mais do que uma simples técnica de simulação, System Dynamics tornou-se uma nova linguagem que, quando internalizada, nos permite ver o mundo com outra perspectiva. Esta perspectiva inclui, dentre outros, os seguintes aspectos:

– Não linearidade: nem todos os eventos estão relacionados linearmente com suas causas. Assim, uma determinada ação pode gerar reações desproporcionais e distantes no tempo.

– Endogeneidade: o pensamento sistêmico prevê que a causa de todo fenômenos está na estrutura do próprio sistema.

– Interligação e retroalimentação: todos os fenômenos estão, de alguma forma, interligados. Com isso, toda e qualquer ação gerará uma reação no sistema que retroalimentará e atingirá o ponto gerador da primeira ação.

Estes três aspectos, quando combinados, formam as bases de uma diferente forma de se entender o mundo. Em comparação com a visão cartesiana, na qual existem causas externas, o sistema não está totalmente interligado e causa e efeito são lineares e próximas no tempo, a visão sistêmica se revela muito mais complexa, algumas vezes contra intuitiva, mas sobretudo muito responsável.

Um exemplo bastante famoso de uma análise clara do comportamento padrão de um sistema é o jogo da cerveja, mais conhecido no seu nome original, Beer Game. Com este jogo, intensamente utilizado ao redor do mundo, pode-se rapidamente demonstrar que a causa das oscilações nos estoques de uma cadeia de suprimentos está na estrutura da própria cadeia e não na oscilação da demanda do consumidor. Mais importante: os resultados são sempre os mesmos, independentemente de quem joga.

O efeito do BeerGame é bastante interessante, sobretudo em gestores. Eles acabam entendendo que trocar as pessoas que controlam os estoques não é suficiente para que o sistema funcione em equilíbrio. Mais do que isso, é necessário modificar a estrutura do sistema como um todo (entenda-se aqui o contexto amplo do termo estrutura, incluindo a estrutura ou as regras que utilizamos para tomar decisões).

Este tipo de análise pode ser expandido para qualquer situação, problema, domínio ou sistema. Com o auxílio da simulação computacional a estrutura de qualquer sistema pode ser modelada. Mais importante que o modelo em si, é a capacidade do processo de modelagem destas técnicas de suportar o aprendizado, desvendando as causas sistêmicas dos problemas, muitas vezes enraizadas na forma com que nós mesmos tomamos decisões.

Se você quiser conhecer mais sobre o pensamento sistêmico e as técnicas que permitem internalizar esta forma de entender o mundo, recomendo começar pela leitura do clássico Business Dynamics, de John Sterman. Outro livro bastante interessante da aplicação da visão sistêmica é O Ponto de Mutação de Fritjof Capra. Os principais conceitos deste livro estão resumidos no filme Mindwalk, feito por seu irmão. Você pode assistir Mindwalk no YouTube com legendas em português, no seguinte endereço: http://www.youtube.com/watch?v=WD7nbtZsBVk. Mas cuidado, se você tiver a disciplina para efetivamente entender e utilizar tais técnicas no seu dia-a-dia, sua vida nunca mais será a mesma.

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