O papel do gestor e a(s) crise(s)

Muito se tem discutido sobre as causas da crise financeira atual. Dedos apontados de todos os lados, principalmente aos banqueiros que, por sua presumida ganância desencadearam através de novos produtos financeiros a crise atual. Mas, assumindo que a bolha se inflou realmente por conta do mercado financeiro americano, será que a história seria diferente se você, eu, ou qualquer outro gestor estivesse lá, no 50o. andar de qualquer arranha-céu em Nova Iorque?

Em uma matéria da edição de junho da Harvard Business Manager (edição alemã da Harvard Business Review) é apresentada uma pesquisa com 200 gestores alemães e suíços de diversos ramos de negócio sobre sua própria imagem. Destes, 70% pertencem aos mais altos escalões organizacionais. A matéria aponta indícios de que, na minha opinião, qualquer outro gestor, no lugar dos banqueiros atuais, teria sido responsável pela mesma bolha financeira.

O primeiro impressionante resultado: 66% dos entrevistados concordam (assinalaram entre 7 e 10 em uma escala de 1-10) que o sucesso profissional gera significado pessoal para a vida. Além disso, 69% dos entrevistados concordam que este significado pessoal é atingido através da realização de tarefas a eles atribuídas. Somando-se a isso o fato de que 60% dos gestores afirma que direcionadores éticos possuem um papel secundário no dia-a-dia, pode-se inferir que grande parte dos gestores está disposto a tomar qualquer tipo de decisão, desde que esta seja valorizada por seus clientes (sejam estes chefes, clientes reais ou shareholders). E o mais assustador: isso não é pela gratificação monetária. Apesar de ainda considerável, apenas 41% dos gestores afirma que a compensação material gera significado para a vida. Este quadro nos permite acreditar que o objetivo almejado é sim o significado da vida, este atingido através do sucesso profissional. Esta condição torna qualquer gestor refém dos seus próprios objetivos. Ele só precisa de um desafio suficientemente grande para tomar qualquer decisão sem pensar nas conseqüências sistêmicas do seu ato.

Ora, este resultado não está em desacordo com a visão mecanicista, simplificada e extremamente egoísta do homem dada pela teoria dos jogos. Apesar da busca desenfreada pelo significado da vida gerar um sistema social dinâmico que se autoequilibra, geralmente não são incluídas nesta busca considerações sobre o meio ambiente (em sentido amplo). Pense rapidamente na guerra fria. Apesar de gerar um equilíbrio, a produção massiva de armas não considerou o impacto econômico, social e ambiental desta estratégia. Voltando aos gestores, a busca desenfreada pelo sentido das suas vidas através do sucesso profissional prepara armadilhas, como a destruição do planeta, geração de bolhas econômicas, e assim por diante. E justamente neste contexto que eu novamente pergunto: será que qualquer um de nós teria sido capaz de, com outras decisões, diminuir o tamanho da crise atual?

O que há de errado com tudo isso? Se é que há algo de errado. Não creio que a ligação entre sucesso profissional e significado da vida seja algo que esteja ao nosso direto alcance no curto prazo, até por questões biológicas. Acho, todavia, que isto se transformará em um futuro próximo, no qual questões ambientais serão simplesmente questões de sobrevivência. Espero que não seja tarde demais, mas por enquanto, o que podemos fazer? Creio que o primeiro passo é buscar se entender o relacionamento entre as diversas partes do sistema no qual estamos inseridos (e neste termo incluo os sistemas psicológico, sociológico, econômico, ambiental etc.). Para isso precisamos superar conceitos cartesianos mecanicistas entalhados em nossas mentes desde criança e quem sabe impregnados em nossos genes através de gerações. A começar, precisamos de uma nova linguagem. Esta, acredito eu, pode ser fornecida pelas ferramentas de pensamento sistêmico que nos permitem acessar mais do que simplesmente nossos egoístas objetivos. Todavia, pensamento sistêmico é tema para outro post.

Neste sentido, creio que um dos aspectos mais difíceis para a administração do futuro será lidar com objetivos e restrições múltiplas, que incluem muito mais do que apenas o resultado econômico e que estão interrelacionadas de maneira extremamente complexa. Cabe a nós termos uma compreensão simplificada destas relações para que nossas decisões não provoquem impactos indesejáveis (como bolhas econômicas). Esta posição encurrala o Homo Economicus, pois suas decisões passam a necessariamente incorporar questões ambientais mais amplas. Embora acredite que o pensamento sistêmico, quando aprendido desde cedo, possa fornecer um bom caminho para desvincular a motivação de ganhos de curto prazo, ainda não sei se é suficiente.  Contudo, este caminho já está sendo ensinado em escolas de ponta. Acredito que se os princípios sistêmicos fossem diariamente utilizados na tomada de decisões, estas tornariam-se muito mais sustentáveis (uma discussão sobre sustentabilidade ainda seguirá em outro post). Seriam estes princípios também suficientes para remediar bolhas como a atual? Não sei. Sei, porém, que o conhecimento de tais técnicas já é um diferencial, apesar de apenas lentamente reconhecido no mundo corporativo. E você, já tem se preparado para a tomada de decisão amparada em novos (e ameaçadores) paradigmas? Se não, um bom começo é a leitura cuidadosa do livro  “Pensamento Sistêmico: Caderno de Campo – o desafio da mudança sustentada nas organizações e na sociedade”, que traz como autor nosso professor da UFPR Acyr Seleme.

One response to “O papel do gestor e a(s) crise(s)

  1. Oi Donald,

    minha opiniao a respeito: a índole dos funcionários é pouco ou nada valorizada numa empresa. Principalmente quando o assunto é promocao ou ascensao, o ponto analisado é em teoria o desempenho e na prática muitas vezes o “networking”. Isso faz com que os gestores em níveis mais altos tendam a ter uma baixa moral, sendo via de regra mais individualistas que a média. Dessa “populacao amostral”, nao podemos esperar tomadas de decisao responsáveis e que evitariam a criacao de bolhas. O conhecimento sistêmico seria (ab)usado visando gerar resultados ótimos para o indivíduo, mas nao necessariamente para o sistema.

    Abraco,
    Carlao

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