Micromanagement e a lei do pepino

Manchete dos principais jornais alemães ontem, uma notícia curiosa causou certo furor. Trata-se da revogação de uma regulamentação européia que prescrevia que pepinos tortos não podiam ser vendidos inteiros nos supermercados, isto é, só serviam para serem vendidos já cortados em rodelas. Para ser mais exato, a lei prescrevia desde 1988 que o pepino deveria ser praticamente reto, caso ele quisesse ser vendido (com esta brincadeira terminou o principal telejornal alemão ontem).

Por mais hilária e decepcionante que esta lei possa parecer, ela esconde um dos mais perigosos instintos do homem: a sede pelo controle. Excesso de leis (idiotas) não é privilégio do Brasil, onde, dizem as más línguas, um destemido prefeito quis cancelar a lei da gravidade. É comum observarmos em grandes empresas quilométricas listas com leis e regulamentações. Algumas delas até faziam certo sentido na época em que foram criadas (não creio que seja o caso do pepino), mas geralmente acabam sendo internalizadas de tal forma que seu questionamento passa a ser proibido.

O excesso de regulamentações e indicadores de desempenho tende, todavia, a ser prejudicial à organização. Este fato retrata, em primeiro lugar, a visão restrita dos gestores da própria empresa que, através do excesso de controle, demonstram indiretamente desconfiança ou então a certeza de que seus funcionários buscam trabalhar o mínimo possível. Do lado do funcionário, não existe coisa mais decepcionante.

Neste sentido, o excesso de regras, ou para utilizar o jargão da moda, o micromanagement, no qual gestores buscam controlar cada passo do funcionário, é fruto de um conjunto de valores já ultrapassados. A imagem do “gestor sabe tudo e controla tudo” está profundamente em desuso e a importância do trabalho em equipe é amplamente reconhecido.

Como relatado muito bem por Peter Senge em seu best-seller A Quinta Disciplina, construir uma empresa próspera depende da capacidade da empresa em aprender e se adaptar. O aprendizado, todavia, só é alcançável caso os funcionários possam exercer plenamente seu poder criativo e autonomia. E isso contraria completamente o micromanagement. Para o gestor, resta a capacidade de motivar e gerar um sentido para o funcionário (termos em voga: sense-making e story-telling), seja através de mitos, histórias ou de um bom exemplo. E este bom exemplo é baseado na inspiração, não no controle.

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