Mas, afinal, o que são organizações?

Você que administra ou pretende administrar, já refletiu sobre isso?

Fritz B. Simon chama atenção em seu livro de introdução à teoria sistêmica da organização quando alega que o tema “organizações” é tão freqüente na administração quanto o tema “hospitais” é no estudo da medicina. E, em um segundo momento, é impressionante perceber como Simon tem razão. Managers, administradores, gestores de todo o tipo trabalham nas mais diversas organizações sem nunca ter refletido sobre a natureza destas. E essa pergunta é extremamente importante, pois diversos fenômenos organizacionais simplesmente não podem ser gerenciados, uma vez que pertencem à natureza organizacional. Desses fenômenos pinçarei alguns para discutir neste blog em breve, como por exemplo, o paradoxo da decisão, a ilusão da gestão de mudanças e os modismos na administração. Mas, antes disso, é importante nos perguntarmos, afinal, o que é uma organização?

Diversas repostas foram dadas no curso da história para essa questão. Uma das primeiras metáforas utilizadas foi a ‘organização como máquina’. Derivada do cartesianismo juntamente com a administração científica de Taylor, a organização como máquina incorpora conceitos da engenharia na administração. Pressupõe-se que objetivos podem ser ‘objetivamente’ descrtios, uma estrutura pode ser construída e regulada para alcancá-los. Impregnado neste conceito estão as hipóteses de objetivididade e racionalidade, que ainda fazem parte da nossa administração moderna.

Herbert A. Simon e James G. March contribuíram extensivamente para desconstruir diversas destas hipóteses e  mostraram que a organização nada possui de racional. Deste e de outros trabalhos surgiu a metáfora da organização como um organismo. Essa metáfora permitiu observar a organização como um ‘ser’, não mais completamente racional, mas cuja história e o relacionamento com o meio definem a forma com que a organização opera. Esta metáfora permitiu um avanço significativo na forma como a organização é entendida.

Todavia, a organização não é uma máquina e não é um organismo. Ora a organização esboça comportamentos mecânicos, ora a organização esboça comportamentos típicos de seres vivos, ora outros comportamentos diversos. A dúvida, contudo, permanece. O que é a organização? O que diferencia a organização de todo o resto?

A teoria de sistemas sociais desenvolvida por Niklas Luhmann nos fornece um ponto de partida. Luhmann defende que uma organização é um sistema social – isso é: um sistema cujo elemento principal são comunicações. E mais, um sistema social específico, cujas comunicações possuem um tipo específico característico: decisões. Nesse sentido organizações são nada mais do que nexos de decisões que, de alguma forma, observam seu passado, observam seu meio e evoluem no tempo, construindo seu futuro.

Podemos fazer um paralelo com nossa consciência: se nossa consciência se mantém ‘viva’ somente através de pensamentos – cessam pensamentos, cessa a consciência – a organização se mantém viva através de decisões. Uma organização que deixa de tomar decisões simplesmente deixa de existir. Fábricas podem parar, funcionários podem ficar doentes ou sair da organização, processos podem ser retirados ou introduzidos. Entretanto, caso decisões deixem de ser tomadas, a organização ‘morre’.

Essa visão – extremamente inovadora – nos fornece um novo ponto de partida para analisarmos fenômenos organizacionais. Ora, se uma organização é um nexo de decisões, todos os fenômenos organizacionais que observamos devem, obrigatoriamente, se relacionar com a estrutura deste nexo e com as características do elemento básico: a decisão. Essa abordagem nos permite não somente entender organizações de uma outra perspectiva, mas também observar que, diversos fenômenos não são tão facilmente gerenciáveis (como, por exemplo, cultura). Além disso, esse ponto de partida nos abre um amplo horizonte de questões, como: por que decisões? O que é uma decisão? Como a organização toma decisões? É possível gerenciar decisões? Qual a relação de decisões com outros termos como cultura organizacional, objetivos, processos, sistemas etc.? Qual a relação de decisões com economia, política e sociedade? Qual o papel das decisões organizacionais na sociedade?  O que seria uma organização do futuro? Algumas destas perguntas discutirei em posts futuros.

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