Jazz ou Clássica? Lições da música para a administração.

Mesmo a análise mais superficial nos permite comparar os estilos de gestão e as estruturas organizacionais atuais com formações clássicas na música. Metáforas são facilmente encontradas, todavia, creio que tal comparação nos fornece muito mais do que apenas uma outra forma de se explicar ou de se entender a organização atual.

A estrutura organizacional clássica, como por exemplo gigantes multinacionais sobretudo nos ramos de produção, se assemelha muito a uma orquestra. Cada um… é um. Um número no meio de uma multidão. E destes espera-se fidelidade ao maestro e proficiência na execução de tarefas. Nada diferente de grandes organizações com departamentos gigantescos e com orientação fortemente hierárquica. Nesta estrutura a criatividade e a autonomia são extremamente limitadas. Ou será que um solo improvisado no meio da Nona seria bem aceito? Além disso, funcionários são vistos, antes de humanos, como ‘recursos’, pois são substituíveis. Esta é a estrutura organizacional mais difundida hoje. Apesar de encontrarmos algumas tentativas de modificá-la, seu âmago permanece.

Não é em vão que a estrutura ‘orquestra’ ainda sobrevive, apesar de um contexto totalmente diferente daquele no qual ela foi idealizada. Esta estrutura aplica-se muito bem ao controle de uma grande quantidade de pessoas na busca por um objetivo, como a partitura em uma orquestra, comum e bem definido. O problema é que hoje organizações têm dificuldade em escrever suas partituras. A turbulência existente no mercado exige adaptação constante à musica e à plateia. Assim, o modelo do funcionário músico de orquestra,  que vai para a apresentação das 9 às 10 exatamente, executa sua parte e ponto final, não consegue mais suprir as necessidades organizacionais.

Alguns indícios observados nos permitem, todavia, acreditar que num futuro próximo,  nossas organizações se assemelharão mais a uma banda de jazz. Com departamentos e equipes menores que tocam pelo prazer e pela possibilidade de exercitar a criatividade própria. A improvisação, típica do jazz, desvincula o músico das algemas de uma partitura. E qual é a partitura organizacional? Nada menos que seus processos. No modelo ‘orquestra’, a mesma partitura é repetida por diversas vezes, ou seja, a organização busca solucionar diferentes problemas ‘tocando a mesma música’, definida por seus processos.

Por outro lado, a improvisação e o desprendimento do jazz permite que a mesma música seja tocada diferentemente, dada a necessidade do ambiente, da platéia. Na organização isso significa processos menos rigorosos que permitem o aprendizado e a aplicação da criatividade solucionando problemas diferentes de maneiras diferentes. Ou até mesmo solucionar os mesmos problemas de maneiras diferentes, permitindo o aprendizado.

A pergunta que surge então é: como transformar uma grande orquestra em pequenas bandas de jazz? Não é fácil. Observemos as características de um bom músico de jazz. Primeiro ele domina sua técnica. Esse domínio pode ser diretamente transposto para o meio organizacional e significa, na empresa, o domínio da teoria que fundamenta técnicas de gestão. É a base. Vale observar que não se trata de técnicas de gestão, se trata das teorias subjacentes a estas técnicas, pois, o objetivo é poder adaptar as técnicas à situação com base nas necessidades. E isso só se consegue se a teoria for profundamente dominada.

Em segundo lugar vem a inspiração. É fácil se imaginar que em um mau dia é mais fácil tocar em uma orquestra do que improvisar no jazz. E como isso se relaciona com a administração? Motivação! Como motivar os membros da organização a exercitar sua criatividade, a aprender e a se tornar rapidamente adaptáveis? Para esta crucial questão ótimos exemplos têm aparecido. Um dos expoentes no assunto é a Google. Veja por exemplo esta matéria na Istoé Dinheiro. A habilidade da Google em gerar novos conceitos de gestão incentivando a criatividade e a colaboração e, ao mesmo tempo, aumentando a produtividade é realmente impressionante. E é claro que justamente esse modelo inovador de gestão que foi o principal protagonista da sua história de sucesso.

A tendência é bastante clara: a abordagem das pessoas como ‘recursos’ que apenas executam uma partitura bem definida está ameaçada. A valorização das pessoas como agentes geradores do sucesso, criativos, capazes de se adaptar e agradar à plateia é um caminho claro e necessário ao se considerar o mercado atual. Algumas destas tendências vêm vagarosamente  sendo transformadas efetivamente em técnicas, como é o caso da gestão ágil de projetos (veja por exemplo nosso artigo na revista MundoPM de Abril/Maio 2009, p.52 – Capacidade de Transformação: Gestão Ágil de Projetos e Estruturas Organizacionais Transformáveis).

Neste contexto eu pergunto: como fica o maestro em uma banda de jazz?  Ou seja, como fica você, gestor, nesse novo modelo organizacional?… uma discussão para os próximos capítulos!

2 responses to “Jazz ou Clássica? Lições da música para a administração.

  1. Olá Donald, compartilho da visão do humano criativo, participativo e do Jazz como referência de comportamento organizacional. Vale ressaltar que atualmente todos os bons jazzistas sabem ler e conhecem muito de teoria musical, bem como a concepção das grandes bandas na qual, vale muito quem sabe ‘acompanhar’ com dinâmica, ritmo e harmonia o solista da vez. Nesse contexto acho interessante uma ‘partitura organizacional’ a qual forneça o tema e cifra basica, ou seja, objetivos referências estratégicas na qual seja possível descrever recursos e eventos com maior ou menor detalhamento, mantendo a unidade de grandes equipes com diferenteste especialistas e ao mesmo tempo com flexibilidade, pois qualquer alteração de ‘nota’ ou ‘acorde’ será prontamente entendida por todos. É assim que uso as redes de Petri para modelagem organizacional.

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