Intuição: como prepará-la para tomar melhores decisões

“Olha, pega, olha, puxa, pega e puxa!”

Em um curso de pára-quedismo o procedimento de segurança que permite a desconexão do pára-quedas principal e o  comando do pára-quedas reserva é exaustivamente treinado. E eu, em situação extrema de pane (não com o para-quedas, mas com meu braço) vivi na pele a importância deste procedimento estar impregnado no inconsciente. A gravidade do momento não permite pensar duas vezes: a decisão deve ser tomada rápida- e automaticamente.

Dia após dia administradores se confrontam com situações muito parecidas. Crises, ou panes no sistema organização, mudanças ambientais e turbulência no mercado impõem a tomada rápida de decisão sem a possibilidade de uma análise racional profunda da situação em questão. E é nesta hora que o sentimento, a intuição, pode ser extremamente útil, a exemplo da situação de pane com o pára-quedas.

Recentemente diversos pesquisadores têm dedicado sua atenção a este tema. A edição de junho da Harvard Business Manager, edição alemã da HBR, foi dedicada somente ao tema tomada de decisões. A matéria “Por que bons gestores tomam más decisões” alia a psicologia e a pesquisa neuro-cerebral à tomada de decisões e descreve o jogo conjunto das emoções e intuições com a racionalidade. Já na matéria de capa da managerSeminare de julho deste ano, “Intuição na gestão: quão inteligente é o inconsciente” alegam os autores que em muitos casos decisões impulsionadas pela intuição são mais rápidas, mais eficientes e mais baratas que decisões cuidadosamente analisadas.

Os artigos citados demonstram apenas um pouco da controvérsia existente sobre o assunto. Todavia, diversas semelhanças surgem quando analisamos os mecanismos subjacentes à intuição. Recentemente diversos resultados demonstram que nosso inconsciente continua trabalhando, paralelamente às nossas atividades conscientes. Neste trabalho informações adquiridas são processadas e idéias são preparadas ficando à espera para se tornarem conscientes. Diversos eventos históricos suportam esta tese, por exemplo o Eureka de Arquimedes, a maçã de Isaac Newton, o elevador de Albert Einstein ou mesmo a tentativa de Poincaré em descrever um método sistemático utilizando este princípio para a geração de idéias (conforme descrito na matéria da managerSeminare). Determinante no método é a fase da incubação, na qual podemos dedicar nossa total atenção a outras atividades que, em algum momento surge o estalo (ou a ‘Iluminação’, como chamou Poincaré), aquela ótima idéia ou decisão repentina.

Como podemos tirar proveito deste processo na tomada de decisão gerencial? Observamos que um fator convergente nas diferentes pesquisas é a importância da fase preparatória, na qual o indivíduo reúne informações e se dedica integralmente ao estudo das mesmas. Esta fase supre nosso inconsciente com informações que podem então ser por ele processadas gerando decisões ou idéias intuitivas. Neste sentido, nossa intuição é fruto da nossa experiência anterior, das informações por nós coletadas e em nossa memória armazenadas. Esta fase impõe todavia um perigo. Se a intuição é fruto da experiência e um dos maiores problemas a administração é a mudança constante do meio, como podemos nos assegurar que a experiência adquirida ainda é válida? Ou, o corolário, podemos sequer confiar na intuição para uma nova decisão, sendo que no complexo sistema organizacional, cada situação é única?

Ao observarmos outras áreas, como o esporte ou a aviação, concluímos que costumeiramente busca-se um condicionamento constante através do qual nossa intuição seja preparada, como é o caso do treinamento do procedimento de pane no pára-quedismo. E como isso é feito? Através de situações simuladas: jogos amistosos, jogadas simuladas ou então simuladores computacionais. Já que não podemos nos assegurar que nossa experiência passada continua válida, poderíamos então de alguma forma prepararmos nossa “intuição administrativa”, da mesma forma que no esporte, através do treinamento e do uso de situações simuladas? A resposta é sim.

Como já descrevi em outro post, o principal objetivo da simulação é o aprendizado. Através da simulação suprimos o inconsciente com as informações necessárias sobre a estrutura causal do mundo atual e, após esta fase, permitimos que nosso inconsciente trabalhe preparando idéias ou decisões intuitivas para necessidades futuras. Um problema, todavia, é que muitos gestores não entendem a simulação (seja computacional, seja um jogo, como o jogo da cerveja) desta forma. Com isso acabam deixando de investir seu tempo na sua própria preparação para o futuro!

Por fim, acredito que a intuição afiada é parte formadora de qualquer boa decisão. Mas para confiarmos nela é necessário mantê-la constantemente atualizada. Para tanto, exercícios como a análise de cenários, métodos de pensamento sistêmico (por exemplo diagramas causais) ou então a simulação computacional podem ser utilizados. Mais importante do que o método em si é, sobretudo, a atitude do gestor para com o método, entendendo que o objetivo da utilização deste não é a tomada de uma decisão específica, mas o aprendizado contínuo para a melhoria das decisões tanto atuais quanto futuras.

4 responses to “Intuição: como prepará-la para tomar melhores decisões

  1. Olá Donald, tudo bom?

    Interessante esta idéia de que podemos treinar nosso cérebro para tomada de decisões mais rápidas pela utilização de simuladores, métodos de pensamento sistêmico e análise de cenários. Gostaria de saber se você possui alguma referência na área de análise de cenários? Tenho interesse em aplicar este tipo de conhecimento na tomada de decisões para o mercado de ações.
    Obrigado e um grande abraço.

    Diego

    1. Olá Diego,

      Um artigo interessante e relativamente recente sobre análise de cenários que inclui metodologia e limitações é:

      T. Postma; F. Liebl, 2005. How to improve scenario analysis as a strategic management tool? Technological Forecasting & Social Change 72 (2005) 161–173.

      Enviarei o artigo no seu e-mail. Espero que ajude.

      Abraço, Donald.

  2. Donald, parabéns pelo blog. Ainda não consegui olhar tudo mas os artigos que pude ler eu achei excelentes. Ainda bem que podemos contar com bons conteúdos na internet dado o volume de lixo circulando.
    Grande abraço e boa sorte.

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