Cooperação é a alma do negócio

Já dizia o velho ditado: “duas cabeças pensam melhor do que uma.” Ora, então por que um número considerável de empresas ainda continua lutando contra seus fornecedores e clientes em guerras de preço e afins? Ainda lembro-me muito bem de uma conversa informal com Michel Philippart após sua apresentação no seminário “Sucesso em Projetos de Supply Chain: a Força dos Modelos Colaborativos”, organizado pelo prof. e consultor Darli Rodrigues Vieira, sobre o papel da colaboração na indústria automotiva. Philippart, autor do livro “Collaborative Sourcing” da editora UCL e ex-diretor de suprimentos da GSK Biologicals, ressaltou ainda em 2004 que as três gigantes de Detroit teriam escrito seu futuro  naquela época ao perpetuarem suas estratégias predatórias de gestão da cadeia de suprimentos. Se foi só por isso que GM, Chrysler e Ford encontraram tantos problemas, é difícil dizer, mas que foi também por isso, é fácil afirmar.

Também em 2004 um artigo sobre o mesmo assunto apareceu na Harvard Business Review, edição de dezembro, intitulado Building Deep Supplier Relationships. Neste artigo é traçado um perfil detalhado das estratégias de gestão da cadeia de suprimentos adotadas pelas empresas americanas e japonesas. Impressionante é o fato de que, mesmo em solo americano, as empresas japonesas obtiveram maior sucesso na colaboração com fornecedores (também americanos) do que as empresas nativas de Detroit. Mas se o fracasso já fora profetizado, então por que estas empresas não reagiram? Simplesmente porque, ao contrário do que as técnicas americanas pregam, colaboração é muito mais do que um conjunto de processos. A visão extremamente pragmática e “objetiva” da literatura americana reforça demasiadamente a necessidade de se estabelecer contratos e se automatizar a troca de informações. É claro que esta abordagem é um resultado indireto da cultura americana, extremamente técnica, individual e competitiva.

Por outro lado, a cultura japonesa extremamente orientada para as pessoas, investe tempo e valor no cuidado dos relacionamentos, como muito bem descrito na vídeo aula http://www.youtube.com/watch?v=iokoFEl19t4. Através desta comparação é inevitável se concluir que a cultura,  em sentido amplo, é um dos principais fatores a serem considerados na busca de sinergias na cadeia de suprimentos.

Abordando-se o tema desta forma, é fácil entender por que diversos projetos de colaboração (entre eles VMI, CPFR, ECR e assim por diante) fracassaram ou então não atingiram todos os potenciais ganhos do trabalho conjunto. Colaborar efetivamente na cadeia de suprimentos exige uma mudança radical de paradigmas, principalmente no mundo ocidental, migrando-se do “eu” para o “nós” não somente na divisão dos custos, mas também na divisão dos resultados. Esta mudança só é possível com um trabalho prévio, uma lição de casa bem feita, na qual a empresa internamente passa a valorizar o trabalho em equipe. E essa mudança é lenta, dura e difícil de ser alcançada!

Em tempos de crise, atitudes voltadas para a equipe são escassas, todavia necessárias. O trabalho conjunto (com funcionários, clientes e fornecedores) pode permitir que sua cadeia de suprimentos saia mais forte da crise do que entrou, principalmente pelo respaldo e pela flexibilidade que surgem da confiança estabelecida. Os ganhos de um trabalho efetivamente colaborativos não são poucos e, portanto, são assunto para um próximo post.

E na sua empresa? É a colaboração um tema discutido? Em que nível? Questões culturais são abordadas? Cuidado para não investir muito em um projeto fracassado. Cooperação é sim a alma do negócio e a gestão de mudanças, acompanhada da correta abordagem dos aspectos culturais, é fator determinante para o sucesso!

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