Chocolate sem peso na consciência: um exemplo de sustentabilidade

Figura 1: Barra de Chocolate Rewe Bio

Quem não gosta de uma boa barra de chocolate, não é? Mas você sabe qual é o impacto social e ambiental de cada pedaço deste viciante doce? Provavelmente não, embora seja possível que o cacau utilizado para a produção do seu chocolate contenha parcelas de trabalho infantil, condições sub-humanas de trabalho ou tecnologias defasadas cujo resultado é impacto ambiental desnecessariamente elevado. Pois isso está prestes a mudar.

Sustentabilidade não é um assunto novo, mas nem por isso já virou realidade. Ainda estamos muito longe de uma forma sustentável de produzir e consumir. Para muitas organizações, sustentabilidade significa papo furado de ecologistas, cuja implementação implica elevados custos. Neste post já discuti se o investimento em iniciativas sustentáveis é uma necessidade ou ainda é uma coqueluche que poucas empresas podem se permitir.  Neste contexto, a colaboração intensa entre organizações e indivíduos pode ser uma arma eficiente na busca por se reduzir o impacto econômico deste tipo de iniciativa, como ressalta Peter Senge no seu livro “A Revolução Decisiva“. E isso não é somente divagação. Um exemplo disso são os produtos de agricultura orgânica (Bio), socialmente (Fairtrade) e ecologicamente (myclimate e FSC) responsáveis da rede de supermercados alemã Rewe.

Em uma iniciativa pioneira, estes produtos se tornam viáveis não somente pela eliminação do preço de grandes marcas, uma vez que são vendidos com a marca própria do supermercado, mas também pela intensa colaboração entre diversas organizações na cadeia de suprimentos. Reconhecendo as vantangens oferecidas por uma sociedade colaborativa, o Rewe tem trabalhado em conjunto com diversas organizações não governamentais para oferecer ao consumidor um produto de elevada qualidade, economicamente, ecologicamente e socialmente viável. Para exemplificar, descrevo no que segue um destes produtos: a barra de chocolate.

Ao comprar o produto já temos os primeiros indícios de um produto sustentável. Na figura 1 (clique na figura para ampliá-la), vemos a indicação Bio de agricultura orgânica e o selo Fairtrade. O selo Bio é uma iniciativa incentivada pelo governo alemão que atesta a procedência orgânica da matéria-prima e os métodos de produção utilizados através de padrões estabelecidos para a Europa. Como organização não governamental, a Fairtrade oferece certificações de produtos com base na avaliação do grau de responsabilidade social envolvido. Partindo da colaboração entre produtores e indústrias, a Fairtrade busca uma divisão mais igualitária dos lucros, incentivando o desenvolvimento e resguardando a dignidade de pequenos produtores em países mais pobres. A certificação se dá com base em um conjunto de padrões estabelecidos internacionalmente que varia do preço a outras características específicas da matéria-prima utilizada no produto. É interessante que, com o código do produto, se pode pesquisar no site da organização quais são os produtores beneficiados com este chocolate.

Figura 2: Chocolate Rewe

Já no lado de trás da embalagem, mostrado na figura 2, encontramos outros indícios de padrões sustentáveis de produção. O selo de certificação FSC – Forest Stewardship Council, letra (a) na figura, atesta que a produção deste chocolate busca não prejudicar as florestas mundiais. Esta ONG é responsável pelo estudo da cadeia de suprimentos do produto, avaliando o impacto desta nas florestas nativas. Para isso, a organização desenvolveu diversos padrões de produção baseados no princípio que nossas florestas podem ser administradas de forma sustentável, mantendo seus valores econômico, social, ambiental, cultural etc.

Não bastasse a preocupação social e com as florestas, o selo myclimate, letra (b) na figura, demonstra a preocupação com a emissão de gás carbônico. Esta fundação sem fins lucrativos com base na Suíça incentiva projetos de redução de emissão de gases através da substituição de tecnologias, seja através da substituição de usinas convencionais por usinas eólicas e solares nos países ricos, seja através da implantação de fogões ambientalmente corretos em comunidades de pequenos produtores nos países pobres. Investindo 80% do dinheiro arrecadado em diversos projetos ao redor do mundo, a myclimate efetivamente contribui para a redução geral das emissões sem prejudicar a eficiência econômica através da correta substituição de tecnologias.

Ainda na parte exterior da embalagem, letra (c) na figura 2,  o consumidor tem acesso à relação detalhada das matérias-primas utilizadas e quais delas são de produção orgânica, bem como quais delas respeitam os padrões Fairtrade, totalizando 73% do produto. Além disso, nesta relação, a ausência de qualquer tipo de gordura vegetal e corantes ou aromas artificiais oferece um indício da qualidade do produto. Mas esse é só o começo. Consumidores menos informados podem não reconhecer rapidamente o impacto da colaboração com estas diferentes organizações não governamentais. Para informar detalhadamente o consumidor, a parte interna da embalagem do chocolate vem impressa com diversas informações importantes, como demonstra a figura 3.

Figura 3: Parte Interna da Embalagem

No lado esquerdo, letra (a), da embalagem, temos ilustrada a pegada ecológica do produto. Esta pegada mede quanto CO2 é emitido pela cadeia de suprimentos na produção do  chocolate. E vem detalhada por fase, da produção da matéria-prima até a emissão média do consumidor para a compra e consumo do chocolate. Esta informação não só é valiosa, mas é um desafio para ser medida, o que, aparentemente, em conjunto com as ONGs relacionadas, deixa de ser um problema para o Rewe.

Na parte inferior, letra (b) na figura, o consumidor recebe uma explicação detalhada do significado destes números com a indicação detalhada do que é medido. A medição é extremamente completa, incluindo até o gasto necessário com o armazenamento do produto no supermercado. Interessantemente, a letra (d) oferece um padrão de comparação: a emissão de 1km rodado. Assim, cada um pode avaliar quanto custa para o planeta buscar o chocolate de carro ou com o transporte público, uma das opções relacionadas no quadro da letra (e). Este quadro oferece maneiras simples do consumidor contribuir com um mundo ecologicamente mais sustentável.

Por fim, a letra (c) detalha o projeto que você, ao comprar este chocolate, apoia, através da ação conjunta com a ONG myclimate. Neste caso, parte da arrecadação vai para a substituição de fogões rústicos, como o da figura, por fogões ecologicamente mais corretos. Com estes fogões o consumo de madeira não renovável é reduzido, a eficiência aumentada, juntamente com uma melhoria da qualidade de vida da comunidade local. Se 1km rodado de carro gera 150-200g de CO2, este projeto tem como objetivo reduzir a emissão em 175.000 toneladas de CO2 em 7 anos. Nada mal para um simples chocolate.

E você talvez perguntaria, mas tudo isso a que preço? A barra (100g) deste chocolate custa só € 1,49. Para efeitos de comparação, o preço do Milka (100g), um chocolate de qualidade muito inferior é € 0,89 e a barra do conhecido chocolate suíço Lindt ao leite (100g), com qualidade análoga ao chocolate Rewe, custa € 1,50. Nada mal para um chocolate de excelente qualidade ambiental, social, ecológica e do produto! O Rewe é de fato um exemplo atual da organização do futuro. Aquela que reconhece estar inserida em um planeta finito no qual a operação sustentável depende do bem estar da população global. E atinge isso através da correta gestão da sua cadeia de suprimentos com a ajuda de parceiros em uma efetiva sociedade colaborativa. Um exemplo de sustentabilidade econômica, social e ambiental sem contradições! Um exemplo a ser seguido! E logo, pois tudo indica que este tipo de iniciativa passará logo logo a ser apenas um critério qualificador e não mais diferenciador!

2 responses to “Chocolate sem peso na consciência: um exemplo de sustentabilidade

  1. Legal seu blog que eu ñ conhecia, Donald. Parabéns!… Mas no caso do chocolate que vc esmiúça neste post falta os caras darem um tipo sobre a pegada hídrica (a quantidade de água que se gasta para produzir um kg de chocolate). Veja algumas considerações iniciais sobre isso no meu blog, aqui:

    http://hhenkels.blogspot.com/2011/06/1-kg-de-chocolate-24-mil-litros-de-agua.html

    Ñ tenho como comprovar os dados daquela ONG holandesa que levantou e que coloca aqueles números, mas se isso for considerado também temos que adicionar algum peso à consciência desse chocolate, entretanto.

    1. Grande Henry, com certeza, você tem razão! Ainda falta muito para que a pegada deste chocolate se torne uma pegada ecológica, efetivamente. Não só falta o consumo de água, como também a emissão de lixo e outros poluentes. Todavia, dado o desafio administrativo que é medir estes fatores ao longo da cadeia de suprimentos sem elevar os custos de produção, e, sobretudo, oferecer essa informação abertamente a um cliente em geral não preparado (mesmo na Alemanha), considero o passo dado por eles importante. Espero que a moda pegue e que, cada vez mais, tenhamos outros fatores sendo medidos! Ah, de vez em quando visito o Bodocundia! Muito legais seus textos e a reflexão mais profunda sobre o que vemos na grande mídia diária!

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