Afinal, de quantos administradores o Brasil precisa?

Recentemente foi divulgado o resultado do censo da educação superior pelo MEC. Segundo a pesquisa temos atualmente cerca de 705.000 estudantes de administração em um total de 3,1 milhões de estudantes. Com 22,8% do total de estudantes, administração domina as estatísticas com o maior número de alunos. Para efeitos de comparação, na Alemanha essa taxa é de apenas 8,3% dos estudantes. Mas o que realmente significa esse dado? Afinal, de quantos administradores o Brasil precisa? Estamos no caminho certo?

Um em cada 4,4 estudantes no Brasil é estudante de administração. Precisamos de um administrador para cada cinco graduados? Na minha opinião: não! A minha resposta vem embasada em um dos modelos mais difundidos na administração: a cadeia de valor de Porter. Observando este modelo é fácil perceber que o administrador assume um papel apenas secundário na geração de valor. A inovação, maior fonte de competitividade no longo prazo, e a agregação de valor ao produto, maior fonte de competitividade no curto prazo, dependem de conhecimento técnico. Salvo poucas exceções, o administrador não possui a competência técnica fundamental para o desenvolvimento e a produção de produtos e serviços. Exemplos para isso não faltam, ou você acha que o computador aí na sua frente foi criado por um especialista em marketing?

Contudo, alguns argumentam, como Max Gehringer, que a administração, por ser um curso bastante generalista, possui uma elevada empregabilidade e isso explicaria o número elevado de estudantes. Fato, mas a empregabilidade só existe quando técnicos suficientes estão no mercado, quando empreendedores de sucesso existem, suficientes para absorver a elevada oferta de administradores. Sem técnicos não há o que se administrar, a não ser a máquina pública (talvez lá sim, ainda temos uma grande necessidade de administradores!). Além disso, tendências atuais na administração como times auto-gerenciados, hierarquias horizontalizadas e empowerment, isso é, a transferência da autonomia para as posições mais baixas na hierarquia, refletem a tentativa de organizações de reduzir as atividades que não agregam valor diretamente. Essas tendências indicam uma demanda cada vez menor por estes profissionais, sobretudo nas bases da carreira, pois diversas funções da administração tem sido transferidas para posições técnicas diretamente incluídas nas atividades primárias organizacionais. Isso resulta em uma situação paradoxal: embora conhecimentos em administração tenham se tornado cada vez mais necessários, formados em administração, cada vez menos (claro, me refiro aqui sempre a dados relativos, proporcionais a outras profissões).

Por outro lado, o crescimento econômico brasileiro tem sofrido com a falta de profissionais técnicos. Investimentos massivos em infraestrutura no nosso país, possibilitados por uma economia relativamente sólida, sugerem uma demanda crescente por engenheiros, arquitetos, médicos etc. o que pode ser observado em uma pesquisa recente dos maiores salários pagos na atualidade.

Analisando-se a oferta, é fácil verificar que existe um excesso de administradores no mercado, pois seus salários iniciais, aqueles da base da carreira, de auxiliares, planejadores etc. são frequentemente inferiores aos salários iniciais de profissões técnicas. Você poderia, todavia, questionar por que então pesquisas indicam que administradores estão entre as profissões mais bem pagas, com salários médios relativamente elevados? A resposta para essa pergunta reside no elevado desvio-padrão do salário na carreira de administrador. Enquanto CEOs, os Pelés da administração recebem milhões, iniciantes recebem salários próximos ao mínimo. A existência de Pelés, mesmo que não foram formados em administração, como Steve Jobs, cria uma ilusão de que qualquer um de nós, ao cursar administração poderia chegar a estes cargos. Na teoria podemos, mas quantos Seteve Jobs, Ronaldinhos ou Picassos você conhece? Uma visão mais realista sugere que, numa carreira de relativo sucesso em administração, você chegue a cargos de coordenação ou gerência, com um bom salário, todavia muito provavelmente equivalente ou inferior ao salário de outras profissões técnicas. Embora o Conselho Federal de Administração alegue que o salário inicial do administrador gire em torno de R$ 3.000,00 (6 salários mínimos), uma pesquisa rápida por empregos para iniciantes na área na Catho revela o grande desvio padrão do salário inicial que, muito frequentemente, não passa dos R$ 2.000,00. Além disso, por conta da excessiva oferta, o administrador recém-formado enfrenta a dificuldade extra de se provar, se sobressair em um mercado muito mais concorrido do que o mercado por engenheiros, por exemplo, onde a demanda crescente e a limitada oferta está a favor do profissional.

Mas podemos atribuir a quantidade excessiva de estudantes em administração somente à ilusão de um salário milionário e da empregabilidade? Provavelmente não. Os resultados do ENADE 2006 para o curso de administração demonstram que 80% dos estudantes de administração trabalham, sendo que destes, 60% se sustentam, contribuem para sustentar ou sustentam uma família. Isso é, já estão empregados e provavelmente buscam um curso de administração como forma conseguir um diploma de curso superior. Essa hipótese se reforça ao observarmos que apenas 30% dos estudantes alegaram estar trabalhando na área. Assim é provável que a escolha da administração também esteja relacionada à ampla oferta destes cursos no Brasil. O curso de administração exige pouca infraestrutura de uma faculdade, sendo um curso barato e, por consequência, fácil de se abrir e mais barato de se financiar do que um curso técnico. Contudo, a multiplicação de faculdades de esquina invariavelmente prejudica a qualidade.

Com base nos dados de 2009 do ENADE, menos de 10% dos alunos/cursos de administração obtiveram nota superior a 3 (Índice Geral de Cursos), nota apenas satisfatória. Preocupante, cerca de 45% dos alunos e cursos não obtiveram nota mínima superior a 2, o que representa uma péssima qualidade. O que mais chama a atenção é que, com base nos dados do ENADE 2006, metade dos alunos alega que o curso que cursou possui um nível adequado ou muito elevado de exigência! Esses dados são alarmantes. Indicam que, ao você selecionar um curso de administração, se você o fizer cegamente, a probabilidade de cair em um curso péssimo é de quase 50%. E dos seus colegas de turma, metade deles estará satisfeito com o nível de exigência do curso. Contudo, a falta de qualidade se projeta, novamente, na demanda e na oferta por administradores. Reconhecendo o nível muito baixo dos formandos, empresas buscam substituí-los por outros profissionais, muitas vezes formados em cursos técnicos com a alegação que administradores recém formados tem dificuldade com o pensamento analítico e matemático. Mais uma vez, exemplos não faltam.

Neste contexto, retorno à pergunta inicial: de quantos administradores o Brasil precisa? Colocar um número é difícil. Entretanto, acredito que, considerando as tendências no mercado por administradores e a péssima qualidade dos cursos, poderíamos tranquilamente abdicar de 50% dos formandos sem perdas significativas. Aliás, se estes 350.000 estudantes optassem por um curso superior com orientação técnica, aumentando sua capacidade de contribuir diretamente para a geração de valor no país, teríamos sim um grande ganho. E quem sabe, o reflexo disso, no médio prazo, seria um maior mercado para os administradores.

2 responses to “Afinal, de quantos administradores o Brasil precisa?

    1. Caro Bruno,
      obrigado pelo comentário! Pois é, embora eu concorde contigo que a certificação possa ser benéfica em alguns aspectos, creio que acaba não sendo muito distinta da certificação econômica. E essa, a exemplo de nossas “rating agencies”, estamos vendo que não funciona. Da mesma forma que o “provão”, no estilo exame da OAB, acaba sendo prostituído por motivos outros que aqueles puramente profissionais e científicos. A notícia boa é que, no final das contas, o próprio mercado (nosso velho conhecido) regula, através da oferta por cargos e salários. O que podemos todavia fazer, na minha opinião, é esclarecer melhor essa situação para nossos vestibulandos, alunos e aspirantes a administradores, sempre prezando por uma ciência séria, investindo em uma administração coerente e longe do “de tudo um pouco, muito de nada” amplamente pregado por aí. Desta forma, como você mesmo incorpora no seu blog, contribuímos para nos diferenciar e o excedente de cursos e administradores, como empresas insolventes, acaba sendo excluído do mercado. É uma pena que esse processo seja tão longo e, no meio do caminho, todos, sem exceção, sofremos com a baixa reputação da classe!

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