A Ilusão da Causalidade e as Piadas Prontas

Se sistemas sociais fossem causais, não teríamos crises econômicas. Igrejas estariam lotadas. Empresas não faliriam. Famílias, ah, as famílias, não precisariam de terapeutas. Mas não. Sistemas sociais não são causais. E organizações são sistemas sociais (re)produzidos por decisões. Ou melhor, pela comunicação de decisões, pois a decisão que permanece na cabeça do seu chefe, não se torna parte da organização. Assim, quando me refiro aqui a decisões, não me refiro ao processo de escolher uma dentre diversas alternativas possíveis. Este processo, completamente obscuro, permanece um exercício mental do tomador de decisões. Refiro-me à comunicação da decisão que permite que outras decisões sejam tomadas dentro da organização, utilizando-a como premissa.

Nessa rede de comunicação de decisões, isso é, na organização, dois fatores se complementam eliminando qualquer possibilidade de causalidade. Como qualquer comunicação, a comunicação de decisões depende do observador que a interpreta de acordo com suas motivações. É aí que o telefone sem fio do diretor ao estagiário ganha forma, reduzindo a um mínimo a relação da decisão emitida com a decisão executada. Além disso, como organizações, o mercado, outro sistema social, também não é causal. Isso porque a cada operação econômica, cada compra, é independente e nada diz sobre a próxima.

Sem amparo e na tentativa de reduzir a complexidade das decisões, pois a organização precisa decidir, utilizamos diversos mecanismos de absorção de incertezas. Mecanismos esses essenciais na operação de qualquer organização. Um exemplo são métodos de previsão de vendas, cuja premissa básica é a repetição no futuro do padrão observado no passado. Em alguns casos específicos, como o caso da previsão de vendas para alguns tipos de produtos específicos, esta premissa é aceitável (observe, aceitável!) pois se ampara na estrutura de expectativas estabilizadas do sistema social em questão, nesse caso o mercado. Contudo, nos acostumamos tanto com estas ferramentas de redução da incerteza que extrapolamos. Abusamos de relações causais e passamos a crer em piadas prontas. E o tiro sai pela culatra!

Um exemplo destas piadas são as ditas “regras de ouro”. Por exemplo, “cinco dicas para ser um líder eficiente” ou “dez formas de montar uma campanha de marketing vencedora”. Revistas e sites de administração se entopem com este tipo de pesquisa que, na maioria das vezes tem em seu âmago premissas de causalidade completamente falsas. Mas isso não importa, piadas prontas vendem fácil, pois preenchem sua função: a redução da complexidade. E nós continuamos nos iludindo.

E aí pergunto, alucinados por uma complexidade tamanha que se reflete na esquizofrenia organizacional de objetivos constantemente conflitantes – e que não se deixam reduzir à uma medida única: o lucro – continuaremos tapando o sol com a peneira? Continuaremos utilizando modelos ultrapassados e piadas prontas para administrar? As vezes tenho essa impressão, sobretudo quando vejo quão próximas estão a autoajuda e a administração. Ditos Gurus, sobretudo no Brasil, falam cada vez mais com menos conteúdo. Nos Twitters e Facebooks se multiplicam as “frases de efeito” sem efeito algum. E nesse labirinto a única coisa que eu posso assegurar é: se esse for o futuro da administração brasileira, continuaremos a ser o país do futuro.

4 responses to “A Ilusão da Causalidade e as Piadas Prontas

  1. Donald!

    Desde 1958 quando eu iniciei no ensino fundamental, naquela época numa escola isolada, uma professora para as quatro turmas, essa fez a diferença. Depois e hoje continuo ouvindo o que eu ouvi no Ginásio, já num grupo estadual, varias professoras por disciplina que o Brasil será o país do futuro. Hoje com 60 anos continuo ouvindo as mesmas coisas … como falhamos!!!!
    Parabéns pelo artigo.
    Horst

    1. Caro Horst,

      obrigado pelo comentário! Pois é, percebo que temos patinado no Brasil por diversos motivos. Antes alegávamos falta de estrutura e investimentos. Agora “somos a bola da vez” com o mundo de certa forma nos olhando. Mas mesmo assim, nossa tendência de buscar soluções rápidas “para inglês ver” e uma política que infelizmente ainda precisa melhorar muito me levam a acreditar que continuaremos o país do futuro por um bom tempo. Acho que foi Charles de Gaule que uma vez disse que nosso país não é sério. Tenho medo de começar a acreditar que ele, de certa forma, tinha razão.

      Um abraço,
      Donald

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